Bahia testa esponjas nativas para conter espécies invasoras

Experimento científico indica que organismos locais podem funcionar como barreira biológica contra a fixação de corais exóticos em estruturas portuárias

Placa de amostragem com diferentes espécies de esponjas marinhas, destacando um exemplar alaranjado em um círculo amarelo.
Esponjas nativas crescem rápido e ocupam o substrato, criando uma barreira física que impede a fixação de corais invasores como o coral-mole (destacado) e o coral-sol | Foto: Acervo IntegraMar

Olhando de fora, portos, marinas e quebra-mares parecem apenas parte da infraestrutura humana em meio à paisagem. No entanto, abaixo da linha d’água, esses elementos podem revelar um cenário biológico complexo: as partes submersas dessas construções e aterros funcionam como locais propícios à ocupação de espécies marinhas invasoras.

Isso acontece porque esses substratos artificiais são mais simples e homogêneos que os ambientes naturais, favorecendo a instalação de organismos exóticos. “As espécies nativas geralmente não gostam muito desses ambientes (artificiais), o que favorece a colonização por espécies invasoras”, explica o biólogo e pesquisador Edson Vieira, professor da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc).

Para tentar conter essa invasão, Vieira e outros cientistas testaram o uso de organismos locais como escudos nessas estruturas. “O que estamos testando é se, ao colocarmos nesses substratos artificiais esponjas nativas, que são organismos daqui do Brasil que crescem rapidamente, isso funcionaria como uma espécie de barreira para espécies exóticas”, detalha.


Estratégia preventiva 

As esponjas são organismos que geralmente crescem bidimensionalmente, ocupando em pouco tempo o espaço do substrato. “Como são organismos mais simples, esse processo de crescimento pode se dar de forma rápida, diminuindo a chance de outras espécies, no caso as espécies exóticas, se fixarem e começarem a crescer,” afirma Vieira.

Placa de monitoramento coberta por esponjas e organismos marinhos de cor alaranjada.
Além da Bahia, outros estados também foram locais de experimentação: Rio de Janeiro, Paraná, São Paulo e Alagoas | Foto: Acervo IntegraMar

Ainda segundo o pesquisador, quando se trata de bioinvasão, a melhor estratégia é sempre a prevenção por meio de monitoramento. O objetivo é a detecção precoce, possibilitando o controle da espécie invasora antes que ela aumente sua população e se espalhe.

Afinal, depois que a espécie invasora já está estabelecida, com grandes populações, se reproduzindo e aumentando sua área de ocorrência, o controle e a remoção ficam mais custosos e desafiadores.


Laboratório a céu aberto

E foi exatamente isso que motivou esse experimento, que encontrou na Bahia um endereço certo: a Marina de Itaparica, na Baía de Todos-os-Santos (BTS), conhecida pela grande presença de corais, animais que prestam um importante serviço ecossistêmico na região.

Mergulhador utiliza ferramentas para fixar ou manejar uma colônia de coral no fundo do mar.
Além de atuarem como sensíveis “termômetros” da saúde dos oceanos, os recifes de coral abrigam uma biodiversidade vital para o equilíbrio climático e a absorção de carbono no oceano | Foto: Projetos Mares

Itaparica foi um dos lugares onde placas com diferentes combinações de esponjas nativas permaneceram submersas durante seis meses, entre fevereiro e agosto de 2026. Além da Bahia, outros estados também foram locais de experimentação: Rio de Janeiro, Paraná, São Paulo e Alagoas.

Desde então, o material coletado já está em fase de triagem e identificação dos organismos bioincrustantes que se estabeleceram nessas placas durante o período de exposição. A expectativa é que os resultados sejam conhecidos no primeiro semestre de 2027.

Ricardo Miranda, biólogo e coordenador científico do Projeto Mares, da ONG Pró-Mar, que atua em Itaparica com restauração de recifes de corais nativos e educação ambiental, destaca que “essa análise permitirá comparar as diferentes combinações de esponjas e investigar se a presença e a diversidade das espécies nativas interferiram no estabelecimento de organismos invasores”.

Homem sorridente vestindo camiseta do Projeto Mares conduz uma embarcação no mar.
Ricardo Miranda: “os resultados ampliam o conhecimento sobre o uso de espécies nativas contra organismos invasores, fortalecendo as ações do Projeto Mares | Foto: Projeto Mares

Ainda sobre a importância da pesquisa, ele reforça que as espécies invasoras representam um problema ambiental silencioso e complexo. Isso porque envolve várias linhas de atuação, como controle de barreira de território (complicado quando ocorre no mar), gestão, política pública e legislação.


Por que as espécies
exóticas preocupam?

Espécies exóticas geralmente apresentam várias características que conferem vantagens em relação às espécies nativas, como altas taxas reprodutivas, ausência de predadores e grande potencial competitivo. Quem explica é o biólogo e pesquisador Edson Vieira.

Ele conta ainda que, quando chegam a um novo lugar, essas espécies podem se multiplicar rapidamente e usar os recursos disponíveis, impactando negativamente as espécies nativas e levando a uma diminuição da biodiversidade local. 

Homem de boné observa amostras marinhas em uma bandeja sob um microscópio.
Pesquisador Edson Vieira fazendo a identificação das espécies encontradas nas placas que ficaram submersas durante seis meses em diferentes regiões do Brasil | Foto: Acervo IntegraMar

Quando os organismos invasores não encontram locais propícios para se estabelecer, o pesquisador aponta duas opções: “Se forem espécies que apresentam mobilidade, podem se mover para locais mais adequados. No caso de espécies que vivem fixas a algum substrato, geralmente irão morrer caso não encontrem um lugar.”

“Por isso é importante o espaço estar ocupado por espécies nativas, assim as invasoras têm menor chance de se fixarem, se estabelecerem e se multiplicarem”, reforça.


Resultados preliminares

Ricardo Miranda, coordenador científico do Projeto Mares, explica que, embora não sejam dados finais, já é possível identificar que algumas espécies nativas de esponjas marinhas prosperaram melhor nesse tipo de experimento do que outras. 

A Desmapsamma anchorata, por exemplo, se aderiu muito bem às placas. A Callyspongia sp. também teve um bom desempenho. Já a Dysidea etheria, terceira espécie utilizada, não funcionou tão bem, mas resistiu.

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“Isso mostrou que, embora o coral-mole (Chromonephthea sp., espécie invasora) tenha um mecanismo biológico acelerado de crescimento, recrutamento e competição, com grande poder de dominar o ambiente artificial da marina, as esponjas nativas são organismos que crescem rápido e têm potencial para atuar no controle biológico e na mitigação de invasores nessas estruturas, como píeres e portos”, afirma.  


Parcerias fortalecem a Ciência

Essa pesquisa integra a Rede IntegraMar, financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e formada por pesquisadores de diferentes regiões do Brasil. O experimento é conduzido por Edson Vieira, professor da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), e Gustavo Dias, da Universidade Federal do ABC (UFABC). 

Na Bahia, o trabalho é desenvolvido em parceria com o Laboratório de Ecologia Bentônica da Universidade Federal da Bahia (LEB-UFBA), coordenado pelo professor doutor Francisco Barros, e conta com a participação de Ricardo Miranda, integrante do laboratório e coordenador científico do Projeto Mares. 

A ONG Pró-Mar, por meio do Mares, participou da implantação e retirada do experimento em campo, disponibilizou recursos humanos para as atividades e sua estrutura física para a triagem do material coletado.

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