O Consórcio Nordeste levou a pauta da ambiental da região da COP do Clima à da desertificação com o compromisso de garantir recursos para a transição necessária

Ulaanbaatar (Mongólia). A agenda climática global vive um momento de transição crucial. Após o lançamento do Plano Brasil Nordeste de Transformação Ecológica (PTE-NE), durante a COP30, em Belém, as atenções e os esforços de articulação do Consórcio Nordeste voltaram-se para a COP17 da Desertificação.
Esta transição marcou a passagem de diretrizes amplas sobre o clima para ações práticas, locais e politicamente desafiadoras voltadas à resiliência da terra e ao combate à degradação ambiental no Semiárido brasileiro.
Articulação diária
Para além dos palcos das conferências internacionais, que funcionam como momentos de culminância, a articulação do Nordeste tem ocorrido de maneira contínua. Representando 57 milhões de pessoas (um quarto da população brasileira) e 15% do PIB nacional, o Consórcio Nordeste opera por meio de Câmaras Temáticas.
A pauta ambiental e o combate à desertificação são centralizados pela Câmara Temática do Meio Ambiente, composta pelas secretárias e secretários de meio ambiente dos nove estados da região.
O secretário executivo do bloco, Carlos Eduardo Gabas, enfatizou que o Consórcio desempenha um papel de indutor e organizador, atuando em estreita sinergia e sob orientação do Ministério do Meio Ambiente e da Mudança do Clima (MMA).

O protagonismo dos entes subnacionais foi ainda mais fortalecido na COP17 com a assinatura de um Memorando de Entendimento histórico entre o Consórcio Nordeste e a Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD).
Assinado por Carlos Gabas e pela secretária executiva adjunta da UNCCD, Andrea Meza, com a presença do ministro do MMA, João Paulo Capobianco, o acordo abre canais permanentes de cooperação técnica, dá acesso a metodologias globais de neutralidade da degradação da terra e insere o Nordeste nas redes mundiais de regiões secas.
Além disso, o bloco foi um dos proponentes da carta “Posicionamento Regional dos Governos Locais e Regionais” (junto ao ICLEI América do Sul e Mercociudades, uma rede global de mais de 2.500 governos locais e regionais comprometida com o desenvolvimento urbano sustentável), que defende a criação de instâncias permanentes de governança multinível nas convenções da ONU e o acesso direto de governos subnacionais a fundos climáticos multilaterais.
O PTE-NE e o Fundo Caatinga
O ponto de partida para a nova fase de desenvolvimento regional foi o lançamento do PTE-NE, na COP30, em novembro de 2025. Construído de forma participativa com a colaboração de 515 pessoas e estruturado em seis eixos estratégicos, o plano visa territorializar o Plano de Transformação Ecológica nacional.
Ele organiza cerca de 50 projetos estruturantes em áreas como segurança hídrica, transição energética (com destaque para o powershoring e o hidrogênio verde) e recuperação da Caatinga. O grande desafio, contudo, é assegurar o financiamento para a execução das suas 324 ações prioritárias.

Para viabilizar economicamente essas ações, caberá às secretarias estaduais de Desenvolvimento Econômico a atração de investimentos, que deverão fazer cumprir as salvaguardas ecológicas estabelecidas.
Historicamente, o Nordeste recebia apenas 9% dos desembolsos industriais do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Após pressão dos governadores, o banco lançou um edital específico vinculado à Nova Indústria Brasil, atraindo R$ 130 bilhões em projetos regionalizados, dos quais R$ 113 bilhões já estão em fase de análise de crédito.
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Somando-se a essa estratégia, o Consórcio apresentou na COP17 o Fundo Caatinga. Trata-se de uma plataforma financeira regional estruturada para receber recursos de doações nacionais e internacionais, financiamentos, créditos e blended finance, direcionando-os diretamente para a consolidação dos projetos do PTE-NE.
A região também busca capitalizar sua liderança em energias renováveis para atrair indústrias sustentáveis (powershoring), gerando e consumindo essa energia de forma limpa no próprio território.
Combater a degradação na fonte
Na COP17 da Desertificação, a delegação do Consórcio Nordeste levou uma premissa clara: a prioridade absoluta deve ser estancar a degradação na fonte. “Em vários painéis está se falando de recuperação de terras degradadas, mas se a gente não parar de degradar a terra, nós vamos ficar recuperando a vida toda”, alertou Gabas.
Alinhado a isso, o ministro João Paulo Capobianco lançou oficialmente as metas brasileiras de neutralidade de terras degradadas até 2030, com o compromisso de zerar novos processos de degradação no País até o fim da década.

Para a UNCCD, a forte presença do Nordeste – apelidada de uma verdadeira “bancada da Caatinga” – demonstra o desejo da região de assumir liderança na construção de soluções.
O Semiárido brasileiro consolidou-se como um laboratório de soluções para o Sul Global, onde conhecimentos tradicionais e tecnologias de convivência com a seca (como cisternas, poços solares e barragens subterrâneas) conectam-se a mecanismos modernos de atração de capital produtivo de baixo carbono.
Financiamento internacional
A recuperação de áreas degradadas esbarra diretamente na escassez de recursos financeiros significativos. O secretário executivo do Consórcio apontou uma disputa ética e financeira na COP17: as potências desenvolvidas, historicamente as que mais degradaram o Planeta, possuem maior responsabilidade em financiar essa conta.
Gabas criticou abertamente a postura de grandes potências globais nas negociações, citando especificamente a resistência dos Estados Unidos em aportar mais dinheiro ou aceitar processos vinculantes de restrição.

Por serem os maiores financiadores da UNCCD, os EUA exercem forte pressão financeira para evitar consensos rígidos sobre a exploração da terra. Apesar disso, a diplomacia brasileira, liderada pelo Itamaraty e pelo MMA, atuou intensamente para garantir avanços reais na COP17. “Aqui nós estamos falando do futuro do Planeta. Estou falando de vida. Se você não tiver terra, se você não tiver meio ambiente, você não tem vida”, concluiu Gabas.
Missão na China
Com a agenda concluída na Mongólia, a delegação do Consórcio Nordeste não retornou imediatamente ao Brasil. O bloco seguiu diretamente em missão oficial para a China, programada de 29 de agosto a 4 de setembro.
A comitiva realiza visitas técnicas ao Deserto de Kubuqi (referência mundial em recuperação de áreas degradadas), além de reuniões com a Universidade Agrícola da China (CAU), com o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB) e com ministérios chineses. O objetivo é prospectar novas tecnologias de mecanização, parcerias em energias renováveis e atração de investimentos de baixo carbono para a região.
* A jornalista Maristela Crispim viajou a Ulaanbaatar com o apoio do Instituto ClimaInfo e da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA)


