Lições do Semiárido brasileiro se destacam na COP17

Brasil abre Pavilhão na COP17 da UNCCD com foco em resiliência, inclusão social e justiça climática

Fotografia de um painel de discussão em um estande, há um painel azul vibrante com o logotipo estilizado "Brasil", a inscrição "UNCCD COP17 Ulaanbaatar 2026", o slogan em inglês "Restoring the Earth is restoring the future", e as marcas da ApexBrasil, da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação e dos Ministérios das Relações Exteriores e do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Em frente ao painel, quatro palestrantes estão dispostos em poltronas: uma mulher de calça vermelha e blazer branco, um homem de terno escuro sorrindo, uma mulher de blazer cinza olhando papéis e outra mulher de camisa rosa e saia longa vermelha à direita. À esquerda, um homem fala a um púlpito de madeira ao lado da bandeira do Brasil. Em primeiro plano, a plateia é vista de costas sentada em cadeiras brancas, incluindo uma pessoa com um adereço de flores amarelas no cabelo e outra vestindo uma camiseta preta com inscrições em texto claro nas costas
A Abertura reuniu boa parte da delegação brasileira na COP17, em Ulaanbaatar, capital da Mongólia | Foto: Maristela Crispim

Ulaanbaatar (Mongólia). Em uma iniciativa conjunta do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), do Ministério das Relações Exteriores (MRE) e da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), o governo brasileiro inaugurou oficialmente o Pavilhão Brasil na 17ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17 da UNCCD).

Sob o lema “Restaurar a Terra é restaurar o futuro”, o espaço, aberto em cerimônia desse dia 17 de agosto em Ulaanbaatar, funcionará como o centro de debates, trocas de experiências e articulação política do país até o dia 27 de agosto.

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A solenidade de abertura contou com a participação de importantes lideranças do governo e da sociedade civil no painel de honra, incluindo Edel Moraes, secretária nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável do MMA; Carolina Hippolito von der Weid, diretora do Departamento de Meio Ambiente do MRE e Chefe da Delegação Brasileira na COP17; Marcos Montoiro, assessor para relações internacionais da UNCCD; e  Ivi Aliana Dantas, coordenadora executiva da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA).

Território de vida,
inovação e diversidade

O grande diferencial do posicionamento do Brasil nesta conferência é a desconstrução do estigma de que as regiões secas são sinônimos de miséria e escassez. Em seu pronunciamento, a secretária Edel Moraes enfatizou que o semiárido brasileiro não pode ser reduzido a um olhar de vulnerabilidade.

“O semiárido brasileiro é um território de diversidade ecológica, social, cultural, de conhecimento, de organizações comunitárias fortes, de estratégias de adaptação, de inovação construída por populações que convivem há gerações com condições semiáridas”, destacou.

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Edel defendeu que o combate à desertificação deve priorizar as pessoas que cuidam da terra, da água, do clima e da segurança alimentar. Ela citou a presença e a importância de milhões de agricultores familiares, povos indígenas e comunidades tradicionais, como geraizeiros, vaqueiros, extrativistas e comunidades de fundo de pasto.

“Esses povos não podem permanecer na agenda internacional apenas como populações vulneráveis. São sujeitos de conhecimento, de direito e de ação territorial”. Ela ainda reforçou a necessidade de transformar compromissos globais em ações práticas nos territórios e garantir recursos adequados para a implementação.

Desafios urbanos,
sociais e a diplomacia do clima

A dimensão e a urgência do desafio brasileiro foram detalhadas por Carolina Hippolito von der Weid. Ela relembrou que o Brasil abriga o semiárido mais densamente povoado do Planeta e que os processos de desertificação têm se intensificado devido às mudanças climáticas. E mencionou que cerca de 39 milhões de brasileiros, quase 20% da população nacional, vivem em áreas suscetíveis à desertificação ou em seu entorno.

Diante deste cenário, Carolina apontou que o Pavilhão Brasil será uma vitrine crucial para apresentar as soluções inovadoras da sociedade brasileira à comunidade internacional, com a abordagem de tecnologias sociais, bioeconomia e projetos de restauração do solo. A chefe da delegação também comemorou o papel ativo da sociedade civil na construção do espaço e na diplomacia brasileira, e destacou a promoção de debates essenciais, como o combate ao racismo ambiental.

Mulheres e juventude
na linha de frente

Uma mulher de pele clara e cabelos castanhos escuros e ondulados na altura dos ombros está sentada em uma cadeira cinza de braços pretos, posicionada levemente à esquerda na imagem. Ela usa óculos de grau ovais com armação escura, uma camisa rosa-claro de mangas compridas dobradas até o antebraço e calças vermelhas. Ela segura um microfone preto com a mão direita próximo à boca, parecendo falar durante um evento, e usa um colar longo com um pingente em formato de folha clara, além de crachás pendurados no pescoço. Ao fundo, há um grande painel de LED exibindo uma imagem de paisagem rural ou montanhosa, com uma estrada, campos verdes e formações rochosas sob um céu parcialmente nublado
Ivi destacou que combater a desertificação só é possível quando se inclui ativamente as populações locais nas tomadas de decisão e no monitoramento das políticas | Foto: Maristela Crispim

A inclusão social foi apontada como o único caminho viável para soluções reais. Ivi, representante da sociedade civil pela ASA, destacou que combater a desertificação só é possível quando se inclui ativamente as populações locais nas tomadas de decisão e no monitoramento das políticas.

Fotografia em plano médio de uma mulher sorridente em um evento governamental e ambiental. Ela possui pele clara, cabelos loiros liso-ondulados na altura dos ombros, usa óculos de armação escura e arredondada, camiseta mostarda de mangas curtas e calça de tecido cinza-mescla com cós trabalhado, mantendo as mãos nos bolsos. No pescoço, carrega uma fita de credencial branca com um crachá de identificação em destaque na cintura. Ela está em pé entre poltronas cinza, posicionada à frente de uma grande tela azul onde se lê parcialmente o slogan em letras alaranjadas "is restoring the future" no topo, além dos logotipos do Brasil, da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD) e da bandeira brasileira
“Estar aqui é trazer essa voz, essa prática, essa vivência das mulheres e mostrar para o mundo que o nosso território está lutando contra a desertificação e saindo da invisibilidade”, afirma Apolônia Gomes | Foto: Maristela Crispim

Esse protagonismo comunitário ganha contornos práticos no trabalho das mulheres e da juventude. Apolônia Gomes, coordenadora da Rede de Mulheres Produtoras do Pajeú e membro da Câmara Técnica da Comissão Nacional de Combate à Desertificação (CNCD), ressaltou a importância de levar a voz feminina ao debate internacional.

“A regeneração da Caatinga também se dá pelas mãos das mulheres. Estar aqui é trazer essa voz, essa prática, essa vivência das mulheres e mostrar para o mundo que o nosso território está lutando contra a desertificação e saindo da invisibilidade”, completa.

Fotografia em plano médio de um homem jovem de pele parda sorrindo com os ombros levemente voltados para a esquerda. Ele tem cabelos curtos e escuros, barba bem aparada, e veste uma camisa xadrez azul e preta sob uma jaqueta bege aberta com bolsos no peito. No pescoço, ele carrega um cordão com uma credencial de identificação oficial. Ele está posicionado em frente a uma parede azul entre duas portas brancas. Ao seu lado direito (à esquerda na imagem), há um monitor digital vertical exibindo o logotipo "Brasil", a inscrição "UNCCD COP17", a data "17 AUGUST · MONDAY" e um retângulo amarelo com os dizeres "16:00 – 18:00 Official opening of the Brazil Pavilion"
“Viemos promover a esperança a partir do que a juventude já realiza na base dos territórios”, afirma Sival da Silva Fiuza | Foto: Maristela Cripim

A juventude também marcou posição firme na abertura. Sival da Silva Fiuza, representante da Rede de Juventudes da Plataforma Semiáridos da América Latina e membro da Comissão de Jovens Multiplicadores de Agroecologia em Pernambuco, trouxe uma mensagem de urgência geracional: “nossa maior expectativa é que as pessoas consigam perceber que a juventude não é o futuro, ela é o agora. Viemos promover a esperança a partir do que a juventude já realiza na base dos territórios”.

Sival pontuou a atuação dos jovens em frentes de desenvolvimento juvenil, gênero, clima e agroecologia no Sertão do Pajeú, Agreste e Zona da Mata pernambucana.

Ciência e cooperação Sul-Sul
para reverter a degradação

Fotografia em plano médio de um homem sênior sorridente, posicionado ligeiramente à esquerda do centro da imagem. Ele possui pele clara, cabelos grisalhos curtos penteados para trás, usa óculos de armação redonda preta, terno cinza, camisa social branca e gravata verde-escura, além de uma fita de credencial da COP17 no pescoço e um broche na lapela. À sua esquerda, vê-se a bandeira do Brasil desfraldada em um mastro de metal. Ao fundo, um grande painel azul exibe a palavra estilizada "Brasil", o símbolo da "UNCCD COP17 Ulaanbaatar 2026" e a frase em letras alaranjadas "Restoring the Earth is restoring the future", acompanhada dos logotipos das Nações Unidas e dos Ministérios das Relações Exteriores e do Meio Ambiente e Mudança do Clima
Ethan Barbosa classificou o Semiárido brasileiro como um “núcleo de resistência e de esperança”, cujos modelos de convivência histórica têm muito a ensinar ao mundo | Foto: Maristela Crispim

A contribuição da ciência e da pesquisa aplicada foi defendida por Etan Barbosa, presidente do Instituto Nacional do Semiárido (INSA). . Ele classificou o Semiárido brasileiro como um “núcleo de resistência e de esperança”, cujos modelos de convivência histórica têm muito a ensinar ao mundo. Barbosa expressou grandes expectativas de que os acordos firmados na COP17 fortaleçam as políticas do Estado brasileiro.

Como resumiu Edel Moraes, a convivência com as condições climáticas ensina que adaptar-se e respeitar os ciclos da terra não significa aceitar a degradação de forma passiva, mas sim combinar conservação, produção científica, saberes tradicionais e dignidade humana.

* A jornalista Maristela Crispim viajou a Ulaanbaatar com o apoio do Instituto ClimaInfo e da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA)

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