Brasil abre Pavilhão na COP17 da UNCCD com foco em resiliência, inclusão social e justiça climática

Ulaanbaatar (Mongólia). Em uma iniciativa conjunta do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), do Ministério das Relações Exteriores (MRE) e da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), o governo brasileiro inaugurou oficialmente o Pavilhão Brasil na 17ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17 da UNCCD).
Sob o lema “Restaurar a Terra é restaurar o futuro”, o espaço, aberto em cerimônia desse dia 17 de agosto em Ulaanbaatar, funcionará como o centro de debates, trocas de experiências e articulação política do país até o dia 27 de agosto.
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A solenidade de abertura contou com a participação de importantes lideranças do governo e da sociedade civil no painel de honra, incluindo Edel Moraes, secretária nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável do MMA; Carolina Hippolito von der Weid, diretora do Departamento de Meio Ambiente do MRE e Chefe da Delegação Brasileira na COP17; Marcos Montoiro, assessor para relações internacionais da UNCCD; e Ivi Aliana Dantas, coordenadora executiva da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA).
Território de vida,
inovação e diversidade
O grande diferencial do posicionamento do Brasil nesta conferência é a desconstrução do estigma de que as regiões secas são sinônimos de miséria e escassez. Em seu pronunciamento, a secretária Edel Moraes enfatizou que o semiárido brasileiro não pode ser reduzido a um olhar de vulnerabilidade.
“O semiárido brasileiro é um território de diversidade ecológica, social, cultural, de conhecimento, de organizações comunitárias fortes, de estratégias de adaptação, de inovação construída por populações que convivem há gerações com condições semiáridas”, destacou.
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Edel defendeu que o combate à desertificação deve priorizar as pessoas que cuidam da terra, da água, do clima e da segurança alimentar. Ela citou a presença e a importância de milhões de agricultores familiares, povos indígenas e comunidades tradicionais, como geraizeiros, vaqueiros, extrativistas e comunidades de fundo de pasto.
“Esses povos não podem permanecer na agenda internacional apenas como populações vulneráveis. São sujeitos de conhecimento, de direito e de ação territorial”. Ela ainda reforçou a necessidade de transformar compromissos globais em ações práticas nos territórios e garantir recursos adequados para a implementação.
Desafios urbanos,
sociais e a diplomacia do clima
A dimensão e a urgência do desafio brasileiro foram detalhadas por Carolina Hippolito von der Weid. Ela relembrou que o Brasil abriga o semiárido mais densamente povoado do Planeta e que os processos de desertificação têm se intensificado devido às mudanças climáticas. E mencionou que cerca de 39 milhões de brasileiros, quase 20% da população nacional, vivem em áreas suscetíveis à desertificação ou em seu entorno.
Diante deste cenário, Carolina apontou que o Pavilhão Brasil será uma vitrine crucial para apresentar as soluções inovadoras da sociedade brasileira à comunidade internacional, com a abordagem de tecnologias sociais, bioeconomia e projetos de restauração do solo. A chefe da delegação também comemorou o papel ativo da sociedade civil na construção do espaço e na diplomacia brasileira, e destacou a promoção de debates essenciais, como o combate ao racismo ambiental.
Mulheres e juventude
na linha de frente

A inclusão social foi apontada como o único caminho viável para soluções reais. Ivi, representante da sociedade civil pela ASA, destacou que combater a desertificação só é possível quando se inclui ativamente as populações locais nas tomadas de decisão e no monitoramento das políticas.

Esse protagonismo comunitário ganha contornos práticos no trabalho das mulheres e da juventude. Apolônia Gomes, coordenadora da Rede de Mulheres Produtoras do Pajeú e membro da Câmara Técnica da Comissão Nacional de Combate à Desertificação (CNCD), ressaltou a importância de levar a voz feminina ao debate internacional.
“A regeneração da Caatinga também se dá pelas mãos das mulheres. Estar aqui é trazer essa voz, essa prática, essa vivência das mulheres e mostrar para o mundo que o nosso território está lutando contra a desertificação e saindo da invisibilidade”, completa.

A juventude também marcou posição firme na abertura. Sival da Silva Fiuza, representante da Rede de Juventudes da Plataforma Semiáridos da América Latina e membro da Comissão de Jovens Multiplicadores de Agroecologia em Pernambuco, trouxe uma mensagem de urgência geracional: “nossa maior expectativa é que as pessoas consigam perceber que a juventude não é o futuro, ela é o agora. Viemos promover a esperança a partir do que a juventude já realiza na base dos territórios”.
Sival pontuou a atuação dos jovens em frentes de desenvolvimento juvenil, gênero, clima e agroecologia no Sertão do Pajeú, Agreste e Zona da Mata pernambucana.
Ciência e cooperação Sul-Sul
para reverter a degradação

A contribuição da ciência e da pesquisa aplicada foi defendida por Etan Barbosa, presidente do Instituto Nacional do Semiárido (INSA). . Ele classificou o Semiárido brasileiro como um “núcleo de resistência e de esperança”, cujos modelos de convivência histórica têm muito a ensinar ao mundo. Barbosa expressou grandes expectativas de que os acordos firmados na COP17 fortaleçam as políticas do Estado brasileiro.
Como resumiu Edel Moraes, a convivência com as condições climáticas ensina que adaptar-se e respeitar os ciclos da terra não significa aceitar a degradação de forma passiva, mas sim combinar conservação, produção científica, saberes tradicionais e dignidade humana.
* A jornalista Maristela Crispim viajou a Ulaanbaatar com o apoio do Instituto ClimaInfo e da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA)

