Campanha promoverá eventos simultâneos no Dia Nacional em Defesa do Velho Chico em quatro municípios banhados pelo Rio São Francisco

Eu viro carranca para defender o Velho Chico. Este é o mote da Campanha promovida pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF) desde 2014, em prol do rio e seus povos. Esta edição, lançada oficialmente em Salvador (BA), tem como tema “Velho Chico. Um rio, muitas mãos”. A iniciativa reforça a importância da atuação conjunta entre comitês de bacias, especialmente dos afluentes, gestores públicos, especialistas e a sociedade civil.
O ponto alto da mobilização ocorre no dia 3 de junho, o Dia Nacional em Defesa do Velho Chico, com a realização de eventos simultâneos em quatro municípios que representam diferentes regiões da bacia: Paracatu (MG), Érico Cardoso (BA), Juazeiro (BA) e Canindé de São Francisco (SE), incluindo áreas que, embora não estejam na calha principal do rio, dependem diretamente de seus afluentes.
A data será marcada por atividades de educação ambiental, integração com os comitês afluentes, exposições, apresentações culturais, distribuição de materiais educativos, oficinas, jogos e ações voltadas especialmente a crianças e jovens. Para o presidente do CBHSF, Cláudio Ademar, sensibilizar as novas gerações sobre o Velho Chico é fundamental.

“É um rio que tem uma movimentação econômica e cultural muito grande, com produção de energia elétrica e fruticultura ali no Vale do São Francisco, por exemplo”, comenta. “Há uma diversidade enorme, incluindo agricultores familiares, pescadores artesanais, povos tradicionais. O Rio São Francisco impacta diretamente cerca de 32 milhões de pessoas, porque eu considero que nós temos na bacia hoje em torno de 20 milhões de brasileiros e mais 12 milhões que recebem água por meio da transposição”.
Não à toa, o Velho Chico é considerado o Rio da Integração Nacional. Tamanha importância, no entanto, não tem se refletido na sustentabilidade do rio. Questionado sobre os principais problemas enfrentados, Ademar cita a carga de esgoto doméstico que cai no rio e o uso descontrolado da água por parte da irrigação e outros meios de produção.
Ele frisa ainda que “são muitas pessoas tirando água do Rio São Francisco, transposições e mais transposições ocorrendo todos os dias, mas a gente não consegue perceber a mesma velocidade quando se trata de revitalização”. É diante desse cenário que “é preciso virar carranca para buscar de fato salvar esse rio”.
Um rio, muitas mãos
Para Cláudio Pereira, coordenador da Câmara Consultiva Regional do Médio São Francisco, que integra o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, é fundamental compreender as limitações do rio e olhá-lo para além da calha, com atenção especial a seus afluentes, de onde vem a água que alimenta esse manancial tão importante.

Ele frisa que o grande interesse pelas águas do Velho Chico não é acompanhado pelo interesse em criar condições para que ele tenha mais água. “Criar mais água é levar em consideração um ambiente equilibrado, é cuidar das nascentes e, principalmente, das áreas de recarga, onde há uma pressão muito grande da agroindústria, do agronegócio”, pontua. “Esse é um grande desafio: a gente precisa ter um olhar social, econômico e ambiental para a bacia”.
É diante desse contexto que o tema deste ano foi escolhido, reforçando que o rio é feito de muitas mãos que precisam, unidas, buscar a revitalização da Bacia do São Francisco. São diversos os grupos que se relacionam com o Velho Chico, compreendendo-o em suas dimensões sociais, históricas, culturais, econômicas e ambientais, sem deixar de lado sua importância vital como fonte de sustento para ribeirinhos e diferentes povos tradicionais, que vivenciam o rio também no campo simbólico e espiritual.
Carrancas de proteção

A história de virar carranca para defender o São Francisco tem explicação: segundo dados do Comitê do São Francisco, a presença das carrancas era marcante na proa das embarcações do São Francisco, do fim do século 19 até meados do século 20.
Diz a lenda que essas figuras antropomórficas, meio bicho, meio gente, teriam o poder de espantar mau-olhado, azar e assombrações, de acordo com os moradores locais.
Conexão com o Nordeste
Cerca de 54% do território da bacia hidrográfica se localiza no Semiárido brasileiro, apesar de abranger três biomas: a Caatinga, o Cerrado, fragmentos de Mata Atlântica, além do ecossistema estuarino do rio. Mineiro de nascimento, o Rio São Francisco percorre seis estados e o Distrito Federal, sendo a maioria deles no Nordeste: Minas Gerais, Goiás, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe.
Assista ao vídeo da 13º edição da Campanha Eu Viro Carranca para Defender o Velho Chico:
Saiba mais sobre a iniciativa em: https://virecarranca.com.br/a-campanha/


