Milagre arrebatador da natureza, Cânion do Poti vive desafios

O Cânion do Poti, elo entre Ceará e Piauí, é um monumento de beleza histórica, geológica e ambiental, mas enfrenta o desafio de conter o turismo predatório

Foto de uma vista panorâmica de um Cânion destacando o contraste entre a aridez das rochas e a vitalidade da água e da vegetação. Em primeiro plano, sobre uma formação rochosa escura e irregular, sobressai um cacto em formato de palma com pequenos frutos e flores em tons de laranja. Ao fundo, o rio serpenteia calmamente entre paredões de pedra estratificada, refletindo a tonalidade escura das margens e da vegetação de Caatinga que recobre as encostas. O céu nublado sugere um dia chuvoso ou úmido
O Parque Estadual Cânion do Rio Poti foi criado em 2017 e está localizado no Piauí | Foto: Samuel Portela

Conexão natural entre o sertão do Ceará e as terras piauienses, o Cânion do Poti rompeu as escarpas da Ibiapaba e tornou-se um monumento de beleza cênica arrebatadora, um testemunho de um dos processos da História da Terra. No entanto, o que antes era um santuário protegido pelo isolamento geográfico e pelo difícil acesso, hoje tanto pode atrair o interesse científico quanto os riscos do turismo predatório, que avança por todas as partes do Planeta.

A singularidade do Poti começa em sua própria gênese. Enquanto a maioria dos rios segue um curso previsível, o Rio Poti desafia a lógica. O pesquisador Rubson Maia, professor de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC), explica que a formação é o resultado de um fenômeno geológico espetacular. “Ele nasce no sertão do Ceará, rompe a borda da escarpa da Ibiapaba e atravessa para o lado do Piauí. Nessa travessia, ele desenvolve o cânion”, descreve.

Esta fotografia captura uma perspectiva interna de um Cânion onde as águas de tonalidade esverdeada fluem suavemente entre imponentes paredões de rocha sedimentar escura e estratificada. Diferente da imagem anterior, esta cena é iluminada por uma luz solar intensa, destacando o relevo acidentado das pedras e o verde vibrante da vegetação que brota diretamente das fendas e do topo das encostas. Ao fundo, a paisagem se abre para uma colina suave coberta por mata densa sob um céu azul pontuado por nuvens brancas
O cânion foi escavado pelo Rio Poti, ao longo de milhões de anos, formando paredões, lajedos e piscinas naturais em meio à Caatinga e Cerrado de transição | Foto: Samuel Portela

Segundo ele, não foi a força da água que escavou rochas moles, mas sim a inteligência da natureza em aproveitar falhas pré-existentes: “Ali são rochas extremamente resistentes. Tinha muita densidade de fratura e essas fraturas foram se conectando, permitindo o fluxo da água por meio delas. Na medida em que a água erodiu, os blocos colapsaram, formando o que vemos hoje”.

Essa arquitetura natural serviu de abrigo e rota para formas de vida que hoje só existem no registro fóssil e para povos que deixaram sua marca no arenito. Gilson Miranda, biólogo e gestor da Reserva Natural Serra das Almas, mantida pela Associação Caatinga (AC), enfatiza que a experiência no cânion é um mergulho no tempo: 

“Toda a parte geológica é um importantíssimo registro histórico que remonta à pré-história. Temos icnofósseis de animais que viviam ali e as gravuras rupestres que são riquezas inestimáveis”. Ele revela ainda que novas descobertas continuam surgindo, indicando que o local foi habitado por diversos povos ao longo dos tempos.

Esta imagem detalha um importante registro arqueológico no Cânion do Rio Poti, apresentando itacoatiaras (gravuras rupestres) esculpidas em uma grande rocha escura e desgastada pelo tempo. O registro exibe formas geométricas intrigantes, com destaque para uma espiral concêntrica bem definida à esquerda e uma figura circular com divisões internas à direita, separadas por uma linha vertical de pequenas escavações pontilhadas. A textura bruta da pedra, cercada por galhos secos e sedimentos no solo, ressalta a antiguidade desses vestígios deixados por populações ancestrais, transformando o leito do rio em um autêntico museu a céu aberto que mescla história humana e geologia.
O parque também protege sítios de interesse arqueológico, com gravuras rupestres | Foto: Samuel Portela

Entretanto, o tom de encantamento de Miranda rapidamente dá lugar à preocupação. O biólogo é testemunha ocular da degradação causada pela falta de consciência de quem agora chega com facilidade ao local. “O Parque está enfrentando um problema seríssimo. As pessoas estão indo conhecer, mas ainda não há ordenamento. Algumas deixam resíduos, outras picham”, lamenta.

O risco à integridade do cânion não vem apenas do vandalismo direto, mas também das grandes intervenções estruturais na região. A futura Barragem de Fronteiras, no lado cearense, embora vista como essencial para o abastecimento de água em uma região árida, impõe desafios ambientais significativos. 

Miranda alerta para o impacto na fauna: “Vai impedir o fluxo gênico de animais. Todos os que vinham daquela região e chegavam à Serra das Almas não conseguirão mais”.

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Para conter o avanço dessas ameaças, a criação de Unidades de Conservação (UCs) tornou-se a principal linha de defesa. Recentemente, o esforço conjunto entre entidades e o poder público resultou na criação de cinco novas UCs no Ceará, com o apoio do Projeto Estratégias de Conservação, Restauração e Manejo para a Biodiversidade da Caatinga, Pampa e Pantanal (GEF Terrestre).

Entre elas, a Área de Proteção Ambiental (APA) Serras da Caatinga (66.387,38 ha) e o Monumento Natural (Mona) Furna dos Ossos (60,37 ha), além da APA Serras de Irauçuba (4.966,24 ha), a Área de Relevante Interesse Ecológico (Arie) Pontal da Serra da Ibiapaba (6.134,39 ha) e o Refúgio de Vida Silvestre (Revis) Picos da Caatinga (2.181,77 ha). Estas áreas, regulamentadas por decretos estaduais no fim de 2025, visam criar uma barreira legal contra o desmatamento e as queimadas na região.

Foto de um grupo de turistas explorando uma imensa formação rochosa que avança sobre a margem do rio, criando uma espécie de abrigo ou gruta natural. Os visitantes aparecem equipados com coletes salva-vidas alaranjados, caminhando e descansando sob a sombra da imponente parede de pedra escura, que exibe texturas rugosas e marcas de erosão milenar. No topo da rocha, a vegetação nativa se debruça sobre a estrutura, enquanto no plano inferior, a proximidade com a água e a escala humana diante dos paredões enfatizam a magnitude geológica do local, revelando o cânion como um destino de aventura e contemplação
O Parque Estadual do Cânion do Rio Poti tem potencial para o ecoturismo e turismo de base comunitária, mas enfrenta o desafio de impedir o turismo predatório | Foto: Jair do Cânion

Samuel Portela, coordenador de Conservação da Biodiversidade da Associação Caatinga, reforça que a proteção é estratégica, especialmente para espécies ameaçadas, como o tatu-bola.

“O Parque Estadual do Cânion do Rio Poti possui alta biodiversidade e relevância hídrica, mas sua importância contrasta com as vulnerabilidades, como os impactos antrópicos e a fragilidade na gestão. O ordenamento do uso público é essencial para garantir a conservação a longo prazo”, defende Portela.

Esta imagem apresenta um close-up detalhado de um tatu-bola (Tolypeutes tricinctus), espécie emblemática da fauna brasileira, em seu habitat natural. O animal é mostrado em meio a uma camada de folhas secas, destacando sua carapaça amarelada composta por placas poligonais rígidas que lembram uma armadura geométrica. É possível observar nitidamente sua cabeça protegida por escamas similares, suas orelhas pequenas e arredondadas, e os pelos claros que crescem na parte inferior do corpo. A fotografia captura o animal em um momento de vulnerabilidade ou curiosidade, reforçando a importância da preservação da biodiversidade na região do Cânion do Rio Poti e demais áreas de Caatinga e Cerrado.
A fauna local inclui espécies ameaçadas, como o tatu-bola, e a flora abriga uma grande diversidade adaptada ao semiárido piauiense | Foto: Samuel Portela

Do lado piauiense, o governo estadual tenta equilibrar a balança entre preservação e economia por meio do “Pacto pela Economia”. Em dezembro passado, o titular da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh-PI), Feliphe Araújo, visitou a região. 

Na ocasião, ele detalhou que o município de Buriti dos Montes foi escolhido para potencializar o ecoturismo: “queremos envolver a comunidade local com hotéis, guias e agências. A ideia é transformar o potencial em produto, mas com diagnóstico e plano de ação”. Os números confirmam a urgência dessa gestão: a visitação saltou de 1.200 pessoas em 2023 para 1.800 apenas no primeiro semestre de 2025.

A imagem registra um momento de interação durante um passeio no Cânion do Rio Poti, focando na figura de um guia ou condutor local, conhecido como Jair do Cânion. Ele está posicionado em uma embarcação, vestindo uma jaqueta com estampa de camuflagem militar e óculos de sol, mantendo um olhar atento enquanto auxilia os visitantes. Em primeiro plano, as costas de dois turistas — um usando chapéu de palha e ambos com coletes salva-vidas alaranjados — criam uma moldura que direciona o olhar para o guia, evidenciando o aspecto humano e a segurança envolvida na exploração turística da região. Ao fundo, a superfície da água reflete suavemente a luz do dia, reforçando o cenário fluvial e a atmosfera de expedição guiada por esse importante personagem local.
Jair do Cânion é nativo da região, formado em Geografia e colaborador eventual da Associação Caatinga | Foto: Acervo pessoal

Olavo Júnior, prefeito de Buriti dos Montes, reconhece que os desafios são proporcionais ao potencial: “Estamos buscando desenvolver o Município e potencializar áreas que estavam paradas. O investimento privado, como um hotel de R$ 20 milhões, mostra que o turismo vale a pena. Agora, lutamos pelo acesso asfáltico para potencializar ainda mais”.

Guias como Jair do Cânion é um dos que conseguem, ao mesmo tempo, explorar o potencial turístico e promover educação ambiental. Nativo da região, formado em Geografia e colaborador eventual da Associação Caatinga, ele reconhece que os desafios existem, mas trabalha dia a dia para divulgar o destino como algo verdadeiramente transformador para as pessoas que têm o privilégio de conhecer o lugar.

Parceria estratégica

A Associação Caatinga e o Instituto Alok uniram forças para lançar o projeto “Ecoturismo e Desenvolvimento na Caatinga”, iniciativa que visa promover a conservação da biodiversidade e o desenvolvimento sustentável em comunidades do Semiárido brasileiro. Com duração de 25 meses, o projeto será desenvolvido nos municípios de Crateús (CE) e Buriti dos Montes (PI), no entorno da Reserva Natural Serra das Almas, unidade de conservação de 6.285 hectares gerida pela AC desde 2000.

Realizado por meio do Programa Planeta Verde, do Instituto Alok, com o apoio do Fundo Comunitário da Airbnb, o projeto beneficiará diretamente 380 pessoas por meio de ações que envolvem ecoturismo, educação ambiental, valorização cultural e geração de renda baseada na sociobiodiversidade.

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A iniciativa articula estratégias que fortalecem a proteção ambiental e melhoram a qualidade de vida das comunidades locais. Entre as ações previstas estão a implantação de infraestrutura de visitação, como a construção de um mirante em uma das trilhas da Serra das Almas, e a criação de um roteiro ecoturístico regional que conecta atrativos naturais, culturais e comunitários do território.

Alok, que fez show, em Teresina, no dia 25 de abril, reafirma seu compromisso com a transformação social e ambiental. Para ele, a apresentação em Teresina foi a oportunidade ideal para dar visibilidade ao bioma exclusivamente brasileiro. “Estou muito animado para o show em Teresina e poder anunciar essa parceria. É uma iniciativa que gera consciência ambiental e também renda, fortalecendo o ecoturismo como alternativa econômica e de proteção da natureza”, afirmou o artista e filantropo.

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