Nos 300 anos de Fortaleza, conheça alguns dos rostos e movimentos que lutam por uma Fortaleza socioambientalmente viva

Há 300 anos, completados em 13 de abril de 2026, Fortaleza (CE) era tão somente uma vila. A ocupação urbana concentrava-se no entorno da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção e ia até a Praça dos Leões. Enquanto alguns imaginam uma cena de isolamento ao rememorar o passado, outros enxergam a real natureza da capital cearense: uma paisagem dunar imensa.
Agora reduzidas a pequenos pontos da cidade, as dunas de Fortaleza formavam enormes bancos de areia móveis entremeados por lagoas interdunares, que adentravam até oito quilômetros da faixa costeira, em direção ao interior. A pouca cobertura vegetal permitia que as dunas fossem transportadas e moldadas com o movimento constante do vento, hoje força motriz de um crescente mercado de energia renovável.

“Eu sei que as dunas vegetadas, as dunas fixas, têm um papel ambiental muito forte, mas a dinâmica das dunas móveis, as areias se mobilizando através da ação do vento, deslizando na vertente íngreme das dunas… É uma imagem que me emociona”, comenta a geógrafa e ambientalista Vanda Claudino Sales, professora aposentada da Universidade Federal do Ceará (UFC). “As dunas móveis são emocionantes porque é um ambiente de muita interação natural. É a natureza em ação; e essa dinâmica a gente só vê na beira do mar”.
É esse amor que fortalece a luta dos fortalezenses pela proteção das dunas da Capital. As dunas da Sabiaguaba são das poucas sobreviventes da paisagem natural original de Fortaleza, resguardadas pela Área de Proteção Ambiental (APA) da Sabiaguaba e pelo Parque Natural Municipal das Dunas de Sabiaguaba, unidades de conservação sobrepostas na região leste da Capital.
Além da Sabiaguaba, resistem a Área de Relevante Interesse Ecológico (Arie) Dunas do Cocó, na margem esquerda do Rio Cocó, entre os bairros Cidade 2000, Água Fria e Edson Queiroz; as dunas do setor leste da cidade, especificamente na Praia do Futuro e na Cofeco (nome em referência à antiga Colônia de Férias dos Empregados da Coelce); e as dunas da Barra do Ceará.
Esses pequenos remanescentes representam 6,3 km² dos 52,2 km² de cobertura original do ecossistema de dunas na capital cearense, ou seja, 12% da área total. Os dados são da pesquisa Quanto Sobra de Verde em uma Metrópole?, de Maria Ligia Farias Costa (UFMG), publicada em julho de 2025 na revista Sociedade & Natureza.
Essa sobrevivência é fruto de uma luta socioambiental histórica em Fortaleza, capaz de mobilizar comunidades tradicionais, sociedade civil e pesquisadores.

“Até os anos 2000, eu era coordenadora da Comissão do Meio Ambiente da Associação de Geógrafos Brasileiros (AGB), seção Fortaleza, e a gente fazia toda uma disputa de espaços de dunas com a especulação imobiliária, com os próprios órgãos do governo federal, estadual e municipal”, relembra Vanda. “Nesse processo, conseguimos salvar um pouco do campo de dunas”.
Em 300 anos, Fortaleza saiu de uma vila de costas para o mar, focada em apoiar a economia pecuária sertaneja, para um dos principais destinos turísticos do Brasil e do mundo. Parte dessa busca vem justamente da beleza das praias, que não seriam nada sem o ecossistema dunar.
Leia também: Ceará lidera o desmatamento de restinga na Mata Atlântica
Ao mesmo tempo, o apelo turístico é parte do que ameaça a região e os povos que vivem nela: a especulação imobiliária avança sobre as dunas, destrói habitats para a construção em lotes praianos, sob o slogan de “conexão com o meio ambiente”.
Por outro lado, o avanço não vem sem luta. Povos tradicionais, como os da Boca da Barra e da Casa de Farinha, comunidades periféricas e movimentos populares e acadêmicos, a exemplo do Coletivo Sabiá e do Fortaleza pelas Dunas, articulam-se para resguardar as dunas que perduram.
A Fortaleza de 300 anos ainda desconhece a relevância das dunas
“Eu não sabia que a Sabiaguaba era Fortaleza até o ensino médio, quando meu professor de Geografia começou a conversar com a gente sobre. Eu não sabia nem que Fortaleza tinha dunas; pensava que a Sabiaguaba era Aquiraz”, relata Pedro Tavares, 30, geógrafo e coordenador do Fortaleza pelas Dunas, campanha de proteção às dunas da Capital.
“Quando eu peguei a CE-010 e vi de longe a duna e uma floresta do outro lado, a do Cocó, que eu não tinha conhecimento que ia dar na praia, eu falei: ‘Como é que isso é Fortaleza?’ Eu tive certeza que muitos fortalezenses também não conheciam. Eu não poderia ser o único que não sabia”, rememora.

A Sabiaguaba, de fato, só começou a ser amplamente incorporada a Fortaleza nos anos 2000, ainda que, já no começo da década de 1970, a região tenha sido dividida e loteada.
Ocorre que nos anos 2000, a Sabiaguaba e suas dunas ainda eram de difícil acesso. Assim começa uma corrida pela construção da Ponte da Sabiaguaba e de estradas, especialmente a CE-010, que separa a Duna da Baleia (conhecida como Duna do Pôr do Sol) e o Cocó.
No entanto, mesmo com a facilidade no acesso à Sabiaguaba e a instalação de equipamentos na região, como o Complexo Ambiental e Gastronômico da Sabiaguaba, a sensação de Pedro Tavares é de que Fortaleza ainda a desconhece. E aquilo que é desconhecido, não é defendido.

“A sociedade não tem a menor ideia da importância do papel, da dinâmica e da necessidade da existência de dunas”, complementa a professora Vanda. “Eu me lembro de uma reportagem com um empresário da construção civil que construiu vários condomínios e um deles foi o Golf Ville, no Porto das Dunas. Ele disse assim: ‘Nós transformamos uma região árida, arenosa, feia, inútil, em um lindo campo de golfe.’ Ele teve essa coragem de demonstrar a ignorância dele em relação ao campo de dunas. Isso não tem muito tempo, talvez uma década”.
A lógica da “inutilidade” da areia, segundo a pesquisadora, também é adotada pelos gestores públicos. É essa complexidade de interesses econômicos e inconsciência ambiental que os movimentos dedicam-se a enfrentar, principalmente ao manter a participação social no desenvolvimento de políticas públicas.
A APA da Sabiaguaba, criada em 2006, só teve o Plano de Manejo publicado cinco anos depois; mas nunca implementado. Após anos de exigência dos movimentos socioambientais, a Prefeitura de Fortaleza encomendou novo diagnóstico, já entregue e aguardando apenas a publicação.
Em 26 de fevereiro de 2026, durante reunião da Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma) realizada na Sabiaguaba, a Pasta anunciou que ainda faria mais encontros e oficinas para complementar o material entregue.
Enquanto isso, Fortaleza enfrentava uma batalha política envolvendo o Plano Diretor Participativo e Sustentável de Fortaleza (PDPS). Foram seis anos de reuniões, oficinas e encontros da sociedade civil organizada e gestores para definir os novos zoneamentos da Capital, na esperança de garantir mais proteção às áreas verdes.

“São diversas reuniões cansativas de Plano Diretor, de organização de Plano de Manejo, de Conselho Gestor da unidade de conservação. Tudo que é ideia boa, positiva para a área, as autoridades competentes já têm conhecimento”, comenta Pedro Tavares. “O movimento ambiental, as populações e as entidades governamentais indicam esses caminhos, só que não é feito por pressão política e falta de interesse”.
Entre os projetos, está a proposta de construir um ecoduto na CE-010. O objetivo é reduzir o impacto ambiental provocado pela rodovia: ao cortar a duna móvel, a CE abriu um obstáculo de passagem para a fauna e flora e, ainda, criou o problema da constante “invasão” da areia na estrada.

O ecoduto foi desenvolvido pelo Fortaleza pelas Dunas em parceria com engenheiros, ambientalistas e arquitetos para funcionar como um corredor ecológico, garantindo a migração natural da duna móvel e da biodiversidade, ao mesmo tempo em que mantém o fluxo de carros. O Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) recomendou a ideia ao Governo do Ceará, mas o projeto ainda não saiu do papel.
“O movimento ambiental era muito mais respeitado algumas décadas atrás, porque hoje a extrema direita mudou a perspectiva ambiental no Brasil”, pondera a geógrafa Vanda Claudino-Sales, em relação aos desafios enfrentados pelos ambientalistas na implementação de propostas. “Ao mesmo tempo, a população, hoje, é até mais sensível do que o setor produtivo e o setor estatal. Os jovens são um pouco mais críticos, eles percebem que o meio ambiente está sendo dilapidado”.
Arte como impulsionadora de protetores
Se por um lado o embate político se faz pelo conhecimento técnico e ancestral, por outro ele depende da arte para sensibilizar aqueles que, como Pedro Tavares na adolescência, ainda desconhecem as dunas de Fortaleza.
“A gente se coloca como uma ferramenta de potencializar as vozes, os personagens, as pautas, as causas e os eventos (socioambientais)”, comentam Bruno Xavier, Roger Pires e Yargo Gurjão, integrantes do coletivo Nigéria Filmes. “A gente entende que o ativismo, o audiovisual, a arte são formas de chamar atenção da sociedade”.

O Nigéria Filmes produz, há 15 anos, filmes e séries audiovisuais focados na pauta socioambiental. Ainda em 2020, o coletivo produziu o curta Espíritos da Sabiaguaba, protagonizado pelo pescador Roniele Suíra, da Comunidade Tradicional Boca da Barra da Sabiaguaba, localizada no Estuário do Rio Cocó.
Iniciativa do Conselho Pastoral dos Pescadores do Ceará (CPP-CE), com o apoio da Misereor e produzido pela Nigéria Filmes, o curta surge como amplificação da luta da comunidade pela permanência e preservação no e do território, ameaçado pela expansão imobiliária. São cerca de 140 famílias descendentes do povo indígena Suíra, identidade que aos poucos tem sido resgatada por alguns, entre eles Roniele, após décadas de apagamento e silenciamento.
O reconhecimento e o reforço dos direitos da comunidade reflete diretamente na preservação das dunas, por garantir a manutenção de práticas ancestrais sustentáveis, como a pesca artesanal.
Assista ao curta Espíritos da Sabiaguaba:
“A Sabiaguaba é um território muito simbólico do que representa a luta socioambiental, porque a gente tem, ali na beiradinha da cidade, um território que consegue ser preservado, mesmo que ainda longe do ideal”, refletem os cineastas da Nigéria Filmes. “E nesse sentido, o movimento socioambiental tem no audiovisual uma válvula de escape muito boa para as potências de comunicação”.
“É comum a gente lembrar de filmes ou até de campanhas em vídeo que tematizam o socioambiental. As imagens conseguem transportar as pessoas para ambientes onde a natureza pode estar sendo explorada e a gente não consegue enxergar, não consegue tatear”, concluem.
No próximo episódio do especial Quem resguarda Fortaleza viva, conheça os protetores dos parques urbanos de Fortaleza: dos pequenos passarinheiros aos coletivos socioambientais.


