Presidente da Cooperafis, Tamires Carneiro reflete sobre a força da união das mulheres nordestinas e a potência do artesanato da Caatinga no quinto episódio do especial Protetoras da Caatinga

A história de Tamires Carneiro de Oliveira, hoje presidente da Cooperativa Regional de Artesãs Fibras do Sertão (Cooperafis), se entrelaça à de muitas outras mulheres que, como ela, buscam autonomia e uma vida melhor. Baiana de Valente, no Semiárido da Bahia, ela compartilha a seguir como vem tecendo essa trajetória, inspirada pelas mulheres da família, e transformando memória em futuros possíveis para tantas outras.
Unidas pelo artesanato, elas conquistaram mais dignidade e melhor qualidade de vida, fortalecidas por uma rede de apoio mútuo que possibilita sonhar e realizar. É como diz Tamires: cada artesanato conta uma história.
Assim, embaladas por essa trama que traduz a força do coletivo de mulheres, apresentamos a última entrevista do especial Protetoras da Caatinga.
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Andréia Vitório – A Cooperafis valoriza o saber artesanal do sisal, saber notadamente feminino, passado de mãe para filha, atravessando gerações. Foi assim também com você?
Tamires Carneiro – Comigo foi assim também. Na verdade, eu me apaixonei pelo ofício vendo a minha avó e a minha tia fazerem artesanato. Depois, elas se organizaram em um grupo que iria gerar a cooperativa. A organização para comercializar, vender juntas, ter um espaço, um escritório para feiras e eventos, me deixava muito encantada. Assim como as histórias que essas mulheres carregavam com elas e carregam até hoje. Então, chegou o dia em que eu disse que queria trabalhar com isso e fazer parte da Cooperafis.
Eu tinha o desejo de contribuir com essas histórias. Eu queria fazer e vender artesanato, conhecer artesãs de outros lugares, trocar experiências e buscar inspirações.

Quando eu completei 18 anos, fui direto trabalhar e passei a fazer parte da cooperativa. Queria ajudar a Cooperafis a crescer e fazer com que as histórias dessas mulheres aparecessem em outros lugares.
Eu costumo dizer que vender artesanato não é só vender peças, é contar histórias. Às vezes, quando a gente manda um produto para alguma feira e ele não vende muito bem, sabemos que é porque não estávamos lá para contar essas histórias, para contar quem é a mulher que fez essa peça, qual é a história de vida dela, como a gente se conectou, como a cooperativa nasceu, por que nasceu.
A Cooperafis sempre teve uma missão muito definida. Acho que as mulheres foram muito sábias, muito sensíveis quando escolheram essa missão, que é melhorar a qualidade de vida das mulheres artesãs por meio da produção e comercialização do artesanato. Essa missão da Cooperafis é como se fosse a missão da minha vida.
E todas as vezes que eu vejo a realidade das mulheres sendo mudada, eu fico mais emocionada. Eu sou muito apaixonada pela cooperativa e pelas mulheres de lá. Muitas artesãs me inspiram.
O fato de o artesanato atravessar gerações aconteceu comigo e acontece com outras artesãs. Isso me encanta.
Por mais que minha mãe fosse uma mulher simples, ela não tinha medo de ir, de buscar ou discutir a melhoria da nossa comunidade
Tamires Carneiro
AV – Como as mulheres da sua vida contribuíram para a mulher que você é hoje?
TC – É uma pergunta que talvez eu nunca tivesse parado para pensar. Mas nem preciso parar para pensar sobre isso, porque a educação que eu recebi quando criança e adolescente foi sempre para que eu fosse uma mulher honesta, correta, que trabalhasse e fosse independente. A minha mãe não era artesã, mas sempre foi líder comunitária e uma grande inspiração para mim.
Ela sempre esteve disposta a lutar pelo bem-estar coletivo. E, por mais que minha mãe fosse uma mulher simples, ela não tinha medo de ir, de buscar ou discutir a melhoria da nossa comunidade.
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Minha mãe era uma mulher que sempre buscava o que ela acreditava. E eu acho que, de certa forma, eu sou exatamente assim. Quando eu acredito em alguma coisa, eu vou. Mesmo com muitas dificuldades e vontade de desistir, às vezes.
A minha avó é uma referência com quem eu aprendi a fazer o artesanato, uma mulher com muito amor no coração. Então, ao mesmo tempo que aprendi a ser muito forte com a minha mãe, aprendi que eu poderia ser uma pessoa carinhosa e amável, na mesma proporção.
Elas são meus exemplos, me ensinaram no dia a dia sobre respeito, empatia e me inspiram a ser melhor a cada dia.

AV – Hoje você é presidente da Cooperafis, uma cooperativa feita por mulheres e que vem se consolidando desde 2022, mudando a vida das cooperadas. Quais são os principais aprendizados e as boas práticas dessa experiência que poderiam inspirar outros coletivos de mulheres da Caatinga?
TC – A Cooperafis é uma inspiração primeiro para mim e penso que deve ser para outras mulheres, pois tudo que a cooperativa conquistou foi no coletivo. As cooperadas entenderam que trabalhar juntas, mesmo com alguns embates, é importante, pois fortalece e consolida uma ideia.
O projeto da Cooperafis é o de melhorar a qualidade de vida das mulheres artesãs com a produção e comercialização do artesanato. E a nossa experiência ensina que, quando trabalhamos juntas, temos mais força para alcançar um objetivo. Hoje, mesmo não sendo a realidade de todas ainda, tem mulheres que chegam a ganhar mais de um salário mínimo. E tem filhas e netas de artesãs que são artesãs cooperadas porque enxergam a possibilidade de melhoria na qualidade de vida.
A Cooperafis proporcionou e proporciona muitas primeiras vezes na vida dessas mulheres: a primeira vez que ganharam dinheiro com seu próprio trabalho, a primeira vez que tiveram a oportunidade de andar de avião, ver o mar, ir a outro Estado, conhecer outros artesãos, participar de uma feira e vender seu próprio produto. E, também, de contar as suas histórias para pessoas que param e escutam com interesse.
Na nossa região, a mulher tem um papel muito importante porque, além do artesanato, temos muitos grupos de mulheres agricultoras, que fazem com que a economia aconteça
Tamires Carneiro
AV – Como foi o seu caminho até chegar à liderança da Cooperafis? Compartilha com a gente.
TC – Primeiro precisei ser artesã, pois a Cooperafis é de autogestão. Depois, fui voluntária para ajudar no escritório, aprender sobre cada história que as mulheres contavam, participar dos espaços de diálogo de economia solidária, liderança e comercialização. Assim, fui passando por alguns cargos na diretoria até chegar à presidência. Assumi interinamente a presidência da cooperativa em 2018 e agora estou no meu segundo mandato consecutivo.
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AV – Para você, de que forma o protagonismo feminino no Semiárido contribui para a proteção e a valorização da Caatinga? Qual é a importância da Cooperafis e de outras redes femininas nesse processo?
TC – Na nossa região, a mulher tem um papel muito importante porque, além das redes que construímos aqui, de artesanato, temos muitos grupos de mulheres agricultoras, da agricultura familiar, que fazem com que a economia aconteça. Para fazermos parte disso, precisamos cuidar do que a gente tem.
Então, por exemplo, na Cooperafis, nós usamos matéria-prima da Caatinga. Ou seja, cuidamos para que a Caatinga seja preservada, como mulheres, empreendedoras e artesãs. E, com as mulheres que fazem parte de outras redes, não é diferente.

As meninas que vêm diretamente da agricultura familiar, que trabalham principalmente com as redes de alimentação, também precisam que a Caatinga seja preservada, e elas cuidam disso.
Existem muitos projetos para a preservação da Caatinga e na maioria deles, por mais que os homens estejam envolvidos, o protagonismo da mulher acaba sendo maior.
AV – Atualmente, a cooperativa é composta por 70 artesãs, distribuídas em 9 núcleos de produção nos municípios de Araci, São Domingos e Valente, onde fica a sede da entidade, na Bahia. O que une essas mulheres? E o que une você a elas?
TC – O que une as mulheres da Cooperafis é o sonho de empreender, de independência, de amor pelo artesanato e, principalmente, a busca pela qualidade de vida.
A gente diz que não é terapia, mas é terapêutico, porque você está interagindo com outras mulheres, contando e conhecendo histórias
Tamires Carneiro
Sabemos que o artesanato não é a renda principal da maioria das mulheres, mas ajuda muito a complementar. E há também mulheres que têm com a cooperativa sua renda principal.
E o que me une a elas é principalmente vê-las realizando sonhos por meio da produção do artesanato. Além disso, a certeza de que o que fazemos juntas é muito bonito, mesmo com todas as dificuldades que enfrentamos em nosso dia a dia como mulheres donas de casa, artesãs, empreendedoras e, algumas vezes, até dentro da própria cooperativa.
AV – Antes da Cooperafis iniciar suas atividades, essas mulheres realizavam trabalho braçal pesado, como escavação de açudes, em troca de um pagamento insuficiente, para ajudar na sobrevivência da família. Hoje, quase 25 anos depois, o que a evolução da cooperativa e o trabalho em rede significam na vida dessas mulheres e suas filhas? Acredito que os ganhos vão além da geração de renda, não é mesmo?

TC – Com o artesanato, essas mulheres conseguiram sair do trabalho braçal pesado e passaram a trabalhar em suas casas ou no espaço coletivo na companhia de outras mulheres. Ou seja, além de gerar renda, o trabalho promove essa interação. E a gente diz que não é terapia, mas é terapêutico, porque você está ali, conversando, interagindo com outras mulheres, contando e conhecendo histórias.
E para além disso, fazer parte de uma cooperativa proporcionou várias oportunidades. Muitas mulheres nunca tinham saído de sua cidade, nunca tinham conseguido gerar essa renda sabendo que aquilo é fruto de algo que fizeram, uma arte feita por elas.
Alguém dizer que o trabalho é bonito melhora a autoestima também, né? Muitas viajaram para outros estados, conseguiram viajar de avião pela primeira vez, ver a praia, ver outros artesãos, participar de uma feira.
Quando a gente vê a peça pronta na prateleira de uma loja ou aparecendo na TV, isso proporciona uma felicidade que a gente não consegue nem explicar.
Por mais que a gente ainda não consiga ganhar o que a gente acha que deveria e que merecia, porque infelizmente o artesanato que a gente faz ainda não é tão valorizado quanto ele merece, a gente trabalha dentro de casa, escolhe o horário em que vai trabalhar. Temos metas e responsabilidades, mas temos flexibilidade até mesmo para conciliar com outro trabalho.
Não tem como negar, por mais que no dia a dia a gente não perceba isso, a gente está em espaços que sozinhas não poderíamos estar, não conseguiríamos, porque poder a gente pode tudo, mas às vezes não conseguimos chegar lá sozinhas. Juntas participamos de rodadas de negócios e de feiras nacionais. Neste ano, vamos para o México fazer um intercâmbio com os artesãos que trabalham com sisal, conhecer como eles fazem o tingimento e levar um pouco da nossa experiência.
Isso é o que a jovem Tamires sonhava. Pode ser que até um pouco mais do que imaginei lá no início. Eu sou muito orgulhosa de ser a Tamires da Cooperafis
Tamires Carneiro
AV – E para você, como é fazer parte dessa história? Esse trabalho dialoga com o que a jovem Tamires sonhava ser?
TC – Me emocionei com essa pergunta. Para mim, a história da Cooperafis é muito bonita e me emociona todas as vezes que penso na nossa trajetória, pois mesmo não estando aqui no começo de tudo, fiz questão de saber a história de cada mulher.
Saber o quanto fazer parte da cooperativa mudou a vida delas é especial e foi por sentir orgulho dessas mulheres que eu quis fazer parte disso e ajudar na construção dessa história.
Então, sim, isso é o que a jovem Tamires sonhava. Pode ser que até um pouco mais do que imaginei lá no início. Eu sou muito orgulhosa de ser a Tamires da Cooperafis.

AV – Para você, o que é ser uma mulher nordestina, do Semiárido? Como o seu território influencia na sua identidade?
TC – Eu, particularmente, amo ser nordestina, amo ser baiana. Por mais que a gente escute algumas críticas, eu sempre fui e sou muito orgulhosa de ser nordestina, porque define quem eu sou, meu caráter. Eu fui criada aqui pelos meus pais nordestinos, conheço a realidade daqui, sei da dificuldade que as pessoas têm, mas eu sei também o quanto esse povo é generoso, é trabalhador, luta pelas coisas que acredita, para que tudo dê certo.
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Aqui a gente tem uma associação que diz o seguinte: o sertão tem tudo o que se precisa; se faltar, a gente inventa. E é bem por aí, porque nós temos nossas limitações, principalmente da parte climática, da região semiárida. Então, a gente precisa lutar um pouco mais para ter uma vida melhor em relação a isso, para colher, para plantar. A gente precisou usar da nossa força, da nossa inteligência para inventar coisas para viver dignamente bem.
O povo nordestino tem uma força gigantesca e isso é muito bonito. Eu sou apaixonada por essa força que o nordestino tem. Então, ser mulher nordestina é ser forte, mesmo que as dificuldades estejam aí todos os dias. Não desistimos fácil, somos persistentes e estamos sempre em busca do que acreditamos ser melhor para nós e para os que estão próximos, pois somos acolhedoras.


