Adriana Lucena: comer é memória, mas também é disputa

Pesquisadora e cozinheira autodidata, Adriana Lucena percorre o sertão para resgatar ingredientes, técnicas e histórias que resistem ao desaparecimento. Conheça a sua história e pesquisa no quarto episódio do especial Protetoras da Caatinga

Uma mulher de pele clara e meia-idade sorri alegremente enquanto segura uma pequena xícara de café azulada. Ela usa um turbante branco de tecido drapeado, uma camiseta azul-marinho com estampas em letras grandes e possui algumas tatuagens visíveis no antebraço e pulso. O ambiente ao fundo está levemente desfocado, sugerindo um local iluminado com tons de azul e madeira, transmitindo uma sensação de acolhimento e descontração.
Adriana Lucena é pesquisadora em Gastronomia e cozinheira autodidata | Foto: Luana Thayse / Sebrae RN

Entre o sertão vivido e o sertão investigado, Adriana Lucena construiu uma trajetória que escapa às definições fáceis. Nascida em Natal (RN), sem “sangue sertanejo”, como ela mesma diz, foi pela convivência, pela escuta e pela insistência que se tornou uma das principais vozes na defesa da cultura alimentar do Semiárido brasileiro.

Filha de um pesquisador de alimentos, cresceu entre visitas a doceiras, queijeiros e cozinhas de fazenda. Mais tarde, abandonou a carreira jurídica para se dedicar ao que já era, desde cedo, uma inquietação: compreender o que se come, como se come e por que certos sabores desaparecem.

Entre viagens, pesquisas e vivências no território, Adriana construiu um trabalho que vai além da gastronomia. Seu olhar cruza história, política e identidade. No romance No Rastro dos Vaqueiros, seu mais recente livro, ela aprofunda essa investigação, transformando a comida em narrativa e memória.

No quarto episódio do especial Protetoras da Caatinga, alusivo ao Mês Internacional das Mulheres, ela fala sobre pertencimento, lacunas históricas e a urgência de preservar saberes que resistem no cotidiano do sertão.

A imagem mostra uma mulher de pele clara e cabelos escuros presos, em um ambiente de oficina ou cozinha experimental. Ela veste uma camiseta bege com a logo "Feito no Potiguar", uma saia vermelha, usa óculos pendurados no decote e um microfone auricular, indicando que está realizando uma demonstração. Com a mão direita, ela alcança uma garrafa de vidro transparente sobre uma mesa azul, onde também estão organizados pequenos bowls de madeira, potes de condimentos e uma embalagem de "Flor de Sal". O fundo é amplo e iluminado com luzes quentes, apresentando um balcão azul e outras pessoas de forma desfocada, o que confere um aspecto profissional e dinâmico à cena.
Nascida em Natal, com forte ligação com o sertão, Adriana dedica-se há mais de duas décadas à preservação da cultura alimentar nordestina | Foto: Luana Thayse / Sebrae RN

Adriana Pimentel – Você é frequentemente apontada como uma defensora da Caatinga. Esse lugar faz sentido para você?

Adriana Lucena – Eu costumo lembrar de uma frase de Manuelito Dantas, que me apresentava assim: “essa aqui é a minha amiga Adriana, que tem o pior defeito do ser humano: não tem um pingo de sangue sertanejo. Em compensação, dedica a vida a lutar pelo Semiárido”.

E isso diz muito. Porque, de fato, eu não tenho origem sertaneja. Sou nascida em Natal, meus pais e meus avós também. Mas existe uma coisa que não se explica por sangue, se explica por vivência.

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Meu pai era pesquisador de alimentos, sociólogo, e me levava desde pequena para conhecer doceiras, produtores de queijo, cozinhas do interior. Eu cresci dentro desse universo. E me apaixonei pelo sertão ainda criança.

Na adolescência, enquanto muita gente queria ir para a praia, eu preferia passar o fim de semana na fazenda. Então essa relação não nasce de uma raiz biológica, mas de uma escolha, de um encantamento que virou compromisso.

AP – E quando essa paixão virou trajetória profissional?

AL – Quando eu percebi que não me encaixava no mundo jurídico. Eu fiz Direito, segui esse caminho, mas em algum momento ficou claro que não era ali. Foi quando eu decidi “brigar” pelo Semiárido e fazer isso a partir da alimentação. Porque a comida é uma forma de contar história, de preservar cultura, de manter modos de vida. E isso já vinha de antes. A pesquisa de alimentos sempre esteve comigo, desde a convivência com meu pai.

Nesta imagem, a mulher de pele clara e cabelos escuros, agora vista de um ângulo mais baixo e próximo, aparece concentrada enquanto tempera ou finaliza um preparo. Ela estende a mão direita sobre uma tigela de cerâmica verde-água que está em uma mesa azul, enquanto a mão esquerda, que possui uma tatuagem detalhada no antebraço, segura um recipiente. Ao seu lado, um homem de pele clara, vestindo uma camisa polo branca e chapéu de palha, observa a ação com atenção. O cenário é um amplo galpão com teto de telhas metálicas e iluminação industrial; ao fundo, destaca-se uma estrutura laranja vibrante e balcões em tons de azul, reforçando o ambiente de um evento gastronômico ou feira cultural.
Adriana Lucena ministra palestras e oficinas em diversos eventos no Brasil, com foco na valorização de ingredientes nativos e saberes tradicionais | Foto: Luana Thayse / Sebrae RN

AP – Você fez mestrado em Política Agrícola em Portugal. Como essa experiência impactou o seu olhar?

AL – Impactou muito, porque eu já fui com essa inquietação da pesquisa. Meu pai, inclusive, me dava “encomendas”: investigar pratos, entender origens. Eu passava meus domingos, que eram dias livres, em bibliotecas pesquisando comida. Enquanto muita gente estava descansando, eu estava tentando entender de onde vinham os pratos.

Um exemplo curioso é a buchada. Em Portugal, ela existe com outro nome: maranhos. E aí eu comecei a rastrear isso. E descobri, por exemplo, que esse tipo de preparo é celta, de onde hoje é a Escócia. E lá também tem uma buchada. É o prato nacional da Escócia.

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Na verdade, é o prato real escocês, que se chama Haggies. E quando é um banquete oficial, entra um gaiteiro na frente tocando, o chef de cozinha com as buchadas numa travessa de prata e quando se corta, corta em cruz saudando a rainha, agora o rei.

E isso abre uma outra camada de entendimento, porque mostra como os alimentos viajam, se transformam e permanecem.

AP – Até que ponto a culinária nordestina é influenciada pela europeia?

AL – Essa é a narrativa oficial: de que a comida portuguesa foi adaptada aqui, com contribuições indígenas e africanas. Eu mesma acreditei nisso por muito tempo. Mas, quando você vai para o campo, começa a ver que essa história não se sustenta completamente. 

Uma mulher está de costas, no lado direito do quadro, posicionada à frente de uma longa mesa azul em formato de "U", onde várias pequenas tigelas de madeira estão organizadas para degustação. Ela veste a mesma saia vermelha e uma camiseta bege com a estampa "Orgulho do meu Rio Grande do Norte". À esquerda, o homem de chapéu de palha observa a cena apoiado em um balcão de madeira. Ao fundo, uma plateia atenta de diversas pessoas acompanha a apresentação, cercada pela estrutura industrial do galpão, que exibe faixas coloridas penduradas no teto e um painel ao fundo com a inscrição "FEAQUARN".
Adriana Lucena em evento no Sebrae do Rio Grande do Norte | Foto: Luana Thayse / Sebrae RN

Tem muita coisa no sertão que não existe em Portugal, e que não é simples adaptação. Por exemplo, técnicas. O tipo de guisado que fazemos aqui, mais denso, mais encorpado, não aparece na cozinha portuguesa, que é muito mais caldosa. 

Em 2024, estive em Portugal e confirmei isso. Tenho mais de 100 receitas de carneiro e cabrito de lá e nenhuma usa as mesmas técnicas que usamos no sertão. Existe influência, sim. Mas também existe criação própria, inteligência local, adaptação ao território. Isso precisa ser reconhecido.

AP – Como você faz para acessar e registrar esses saberes tradicionais?

AL – Conversando. Eu sou muito curiosa desde criança. Sempre fui de observar, escutar. E quando chego nas comunidades, começo pelos mais velhos. Pergunto coisas simples: o que se comia antes? Como se fazia? Quem plantava? Como preparava? A partir daí, as histórias vão vindo.

É isso que me interessa: rastrear, registrar, entender como esses saberes sobrevivem e por que estão desaparecendo

Adriana Lucena

Mas também existe um trabalho de filtragem. Nem tudo que é contado corresponde exatamente à realidade. A oralidade é rica, mas também precisa ser cruzada, analisada.

AP – Você fala muito sobre ingredientes em risco de desaparecer. O que está estamos perdendo?

AL – Não são só ingredientes, são práticas. Os pratos tradicionais que estão desaparecendo, que deixam de ser feitos… Por exemplo, a panelada ainda voltou a ser feita e vangloriada no Ceará, mas também estava quase esquecida. No Rio Grande do Norte está totalmente esquecida. Quem tem menos de 30 anos, nem no sertão, nem nas fazendas, tem noção do que é uma panelada.

Nesta imagem, a mulher aparece em pé, segurando a tigela de cerâmica verde-água com as duas mãos à altura do peito, enquanto mexe o conteúdo com uma colher. Ela exibe um sorriso discreto e satisfeito, olhando para algo à sua frente fora do quadro. O plano é aberto, revelando mais do ambiente: um grande galpão com estrutura de telhado aparente e iluminação por refletores. À esquerda, em primeiro plano sobre a mesa azul, destaca-se uma garrafa de vidro com bico dosador e um pano de prato estampado. Ao fundo, um homem observa a cena sentado atrás do balcão, e a luz solar entra lateralmente, criando um efeito de brilho intenso (flare) que reforça a atmosfera vibrante e produtiva do evento.
Adriana Lucena também investiga o desaparecimento de receitas sertanejas | Foto: Luana Thayse / Sebrae RN

AP – E porquê?

AL – Foi se perdendo o hábito. Outra coisa que se perdeu foi a umbuzada. Você conhece a umbuzada? Hoje quase ninguém sabe que ela era feita originalmente com coalhada, e não com leite.

Eu já cataloguei cerca de dez famílias que ainda mantêm essa forma tradicional. São pequenos focos de resistência. E é isso que me interessa: rastrear, registrar, entender como esses saberes sobrevivem e por que estão desaparecendo.

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AP – Como surgiu a sua relação com o mel de abelhas nativas?

AL – Começou quando eu “chutei o pau da barraca”, em 2002, e fui morar numa casa de taipa em Jandaíra, no povoado do Cabeço, que é a terra da abelha jandaíra. Quando cheguei lá, o cenário era praticamente de extinção. Era muito difícil encontrar mel, e quando encontrava, muitas vezes era retirado de forma errada, derrubando árvores, destruindo o ambiente.

Eu fui para lá já com essa inquietação. Meu avô de criação, que era português, criava abelha jandaíra. Então isso já fazia parte da minha memória. E aí entra Chico, que virou meu filho de coração. Ele já tinha uma história linda com as abelhas. 

Uma mulher vestindo uma camiseta azul-marinho e turbante branco aparece centralizada atrás de uma mesa azul repleta de pequenas tigelas dispostas em fileiras organizadas para degustação. Ela está inclinada, focada em finalizar a montagem de cada porção com cuidado. Ao redor da estrutura em "U" formada por balcões azuis e tampos de madeira, diversas pessoas — adultos e crianças — observam atentamente o processo.
Adriana Lucena em evento no Sebrae RN | Foto: Luana Thayse / Sebrae RN

Quando criança, num momento de tristeza porque os amigos tinham ido embora, pediu à mãe uma galinha para trocar por um enxame. Ele queria algo doce, algo que trouxesse conforto. A partir daí, a gente começou a construir junto.

AP – E onde entra o movimento Slow Food nessa trajetória?

AL – Entra como um divisor de águas. Em 2007, comecei a receber vários sinais. Pessoas me mandando e-mails dizendo: “Isso aqui é a sua cara”. Até que um dia fui pesquisar e encontrei o movimento.

O movimento Slow Food fala de alimento bom, limpo e justo

Adriana Lucena

Acabei sendo convidada para o primeiro encontro do Slow Food no Brasil, em Brasília, o Terra Madre. E aí mergulhei de vez. 

Na prática, eu já fazia algo muito alinhado com essa filosofia. Desde 2005, eu abria minha casa para vivências gastronômicas no sertão. As pessoas iam para ver o processo inteiro: matar a galinha, preparar, entender de onde vem o alimento. Era uma experiência completa. E isso tem tudo a ver com o Slow Food.

AP – O que o Slow Food representa para você?

AL – É uma forma de organizar uma luta que eu já travava. O movimento nasce em 1986, na Itália, como uma reação ao avanço do fast food. Mas ele vai muito além disso. Ele fala de alimento bom, limpo e justo. E traz um conceito muito importante: o de “coprodutor”.

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Que é deixar de ser um consumidor passivo. É querer saber de onde vem o alimento, quem produz, como se produz. É visitar, é se envolver. Quando você começa a fazer isso, você já está dentro do movimento, mesmo sem saber.

Hoje já existem muitos coprodutores, principalmente nos grandes centros. Mas ainda há muita confusão, por exemplo, achar que consumir orgânico resolve tudo.

Eu defendo muito mais o sistema agroecológico do que o orgânico. Porque o orgânico, muitas vezes, é só um selo. Você pode ter monocultura orgânica, e isso não resolve o problema.

Falta reconhecer o uso da madeira, da colher de pau, dos tachos de cobre. São coisas que não são detalhe. São parte do processo, do sabor, da segurança alimentar

Adriana Lucena

AP – E houve conquistas nesse caminho?

AL – Sim. A própria lei do queijo no Rio Grande do Norte é uma grande vitória. Foi uma das primeiras do mundo a proteger os queijos artesanais tradicionais. Mas ainda falta muito.

Falta reconhecer, por exemplo, o sangue como ingrediente, algo essencial em várias preparações tradicionais. Falta reconhecer o uso da madeira, da colher de pau, dos tachos de cobre. São coisas que não são detalhe. São parte do processo, do sabor, da segurança alimentar inclusive.

AP – E existem perdas que te tocam de forma mais pessoal?

AL – Sim. O caso do caju, por exemplo. Os cajueiros tradicionais estão sendo substituídos por variedades manipuladas, que produzem mais, mas têm outro sabor, outra textura, outro aroma. Essa é uma briga que eu não sei se vou ver ser revertida.

E tem também a questão do milho. Hoje, praticamente só existe milho comercial transgênico. Eu, por exemplo, passo mal. Quando planto milho crioulo, não sinto nada. Mas esse acesso está cada vez mais difícil.

Uma mulher está sentada à mesa, inclinada sobre um exemplar aberto do seu livro, intitulado "No Rastro dos Vaqueiros", enquanto escreve uma dedicatória com uma caneta preta. Ela usa óculos de grau e uma túnica branca com detalhes em amarelo suave na gola e nas mangas. Sua tatuagem de flor avermelhada no antebraço direito ganha destaque sobre a mesa de madeira. Ao lado, um exemplar fechado do livro revela a capa com uma imagem de paisagem árida sob um céu azul. O ambiente ao fundo é acolhedor, com luzes quentes e um vaso de flores laranjas desfocado, sugerindo uma sessão de autógrafos ou um momento pessoal de registro.
O livro No Rastro do Vaqueiro, de Adriana Lucena, é um romance de ficção histórica que retrata a formação da pecuária na Caatinga no fim do século XVII

AP – Seu livro, No Rastro dos Vaqueiros, nasce dessas inquietações?

AL – Totalmente. Ele nasce de perguntas que não me deixavam em paz. Coisas da culinária sertaneja que eu não encontrava em Portugal e que não se explicavam pela narrativa oficial. Um dos pontos de virada foi perceber que a manteiga da terra que fazemos aqui é praticamente idêntica à manteiga ghee da Índia.

Depois, em Caicó, observando as pessoas, comecei a questionar até aspectos físicos e culturais. Aquilo não batia com as explicações que a gente sempre ouviu. A partir daí, mergulhei em pesquisas. Li mais de cem trabalhos entre teses, artigos, documentos. Fui buscar pistas em outras línguas, em outras culturas. E encontrei coisas muito fortes.

AP – Como o quê?

AL – Como o cuscuz. Existe uma preparação na Índia chamada sanna, em outras regiões, idli. E quando você analisa a técnica, o processo, é muito semelhante ao nosso cuscuz tradicional.

Isso abre uma discussão enorme. Porque mostra que existem camadas da nossa história alimentar que ainda não foram contadas. E o livro nasce justamente disso: da tentativa de preencher essas lacunas.

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AP – Como era essa transição do milho artesanal para o industrial que você viveu?

AL – Nos anos 1970, surgiram marcas como São Brás e Vitamilho, mas eu ainda alcancei a tradição das fazendas. Usava-se o “milho zarolho”, nem seco, nem maduro demais. Ele era moído com água e passava a noite fermentando antes de ir para o vapor.

AP – E o famoso cuscuz “peito de moça”?

AL – Minha avó fazia na boca da chaleira, por isso o formato. É uma técnica de vapor. O cuscuz marroquino, por exemplo, só tem o nome igual. A técnica é oposta: é sêmola de trigo e você só joga água quente; não cozinha no vapor. Se a técnica é diferente, o prato é outro.

Eu diria que 70% da nossa cozinha é indiana, por causa das técnicas trazidas de Goa

Adriana Lucena

AP – Você também questiona a origem da nossa feijoada, certo?

AL – Sim! Existe esse mito de que a feijoada veio dos restos da senzala, mas isso não existe. A feijoada é portuguesa, documentada desde 1197. Em Portugal, cada região faz com o que tem: coelho, frutos do mar, porco. No Brasil, foi apenas uma adaptação com as carnes disponíveis.

AP – O sarapatel também entra nessa herança europeia?

AL – O sarapatel é de origem celta. É o único prato que é unanimidade em todas as colônias portuguesas, de África a Goa (Índia). Inclusive, eu diria que 70% da nossa cozinha é indiana por causa das técnicas trazidas de Goa.

Uma mulher aparece em um momento de pura celebração e alegria. Ela está de pé, com os olhos fechados em um sorriso largo, enquanto aplaude com entusiasmo. Ela usa uma camiseta azul-marinho, uma saia bege e um boné de cor ocre com a marca "Feito Potiguar". No antebraço direito, destaca-se uma tatuagem de flor avermelhada. Ela ainda utiliza o microfone auricular, indicando o encerramento ou um momento de clímax em sua apresentação. Ao fundo, um homem com barba e camiseta marrom observa a cena, e as cores vibrantes em tons de azul e laranja nas paredes reforçam a energia festiva do evento.
Adriana está finalizando o segundo livro, Feito a Ferro e Fogo | Foto: Luana Thayse / Sebrae RN

AP – E qual foi a sua grande descoberta sobre a carne de sol?

AL – Foi o meu “trunfo”. Descobri em Goa um prato chamado porco ansol. “ansol” vem de cocoon, uma fruta ácida usada para conservar a carne e cortar a gordura. Como no sertão não havia porco no início, adaptaram a técnica para o boi. E tem um detalhe: a carne não é “de sol” porque seca no sol, mas sim porque era deixada para enxugar à noite, ao relento.

AP – E como os indianos teriam influenciado o nosso sertão?

AL – Pela lógica! Os primeiros vaqueiros tinham que ser indianos (hindus). Pense bem: qual a chance de um dono de engenho mandar escravizados com centenas de bois para o sertão e eles não fugirem ou não comerem as vacas? O indiano, que cultua a vaca como sagrada, era o guia perfeito para implantar as fazendas sem tocar no rebanho.

AP – Qual o futuro dessas pesquisas agora?

AL – Publiquei meu primeiro romance em 2025 para contar essas histórias, já que as instituições me fecharam as portas. Agora estou terminando o segundo, Feito a Ferro e Fogo. Ainda quero pesquisar as comidas de Lucena, na Espanha, que têm uma influência judaica fortíssima.

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