A ciência sensível de Edneida Rabêlo sobre o Nordeste

Neste terceiro episódio do especial Protetoras da Caatinga, a pesquisadora Edneida Rabêlo Cavalcanti fala sobre a diversidade e a potência adaptativa da Caatinga, além de discutir os conflitos gerados por grandes empreendimentos na região

Foto de plano médio de uma mulher branca de cabelos curtos e tingidos em um tom de azul-violeta, que sorri para a câmera. Ela usa óculos escuros sobre a cabeça, uma blusa azul com estampas circulares brancas e gola em "V" branca, calças escuras e um colar com pingentes metálicos. Ela está em pé na frente de uma grade metálica cinza, que serve como parapeito para um mirante. Ao fundo, estende-se uma paisagem natural imponente, composta por cânions de rocha clara e vegetação rasteira, com o curso de um rio azul ao fundo do vale, sob um céu claro com poucas nuvens
Endneida Rabêlo Cavalcanti participou da elaboração do Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAB Brasil) | Foto: Solange Coutinho

Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), geógrafa pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), participou da elaboração do Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAB Brasil). Mãe de dois filhos, arte terapeuta, facilitadora de danças circulares uma apaixonada pelo Semiárido brasileiro.

Edneida Rabêlo Cavalcanti é uma das Protetoras da Caatinga, série da Eco Nordeste que traz neste mês de março aquelas que vivem em defesa da preservação do bioma. Nessa entrevista, conheça a trajetória da pesquisadora e os desafios atuando há 36 anos no campo da pesquisa no nordeste brasileiro.

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Yara Peres – Como foi o seu processo de escolha pelo socioambiental?

Edneida Rabêlo Cavalcanti – Eu morava numa área do agreste pernambucano e a minha avó materna era agricultora familiar e também uma pessoa muito atenta e sensível às questões da terra, do plantar e colher, do produzir o alimento, do observar e se encantar pelos ciclos da natureza.

Sobre despertar mesmo esse interesse de que a gente faz parte e precisa estar junto para que as coisas aconteçam e que o alimento surja. É sobre a nossa responsabilidade com tudo isso. Ela era também muito voltada para a questão das manualidades, para o fazer com as mãos.

Selfie de mulher. Em primeiro plano, à esquerda, ela sorri para a câmera. Trata-se de uma mulher branca com cabelos curtos e ondulados em tons de grisalho e azul-violeta, usa óculos de sol de armação bordô e uma blusa azul-escura com colares de contas coloridas. Ao fundo, o cenário destaca formações rochosas arredondadas e claras que emergem do solo, características de lajeiros ou áreas de erosão milenar. A paisagem se estende por uma vasta planície com vegetação arbustiva verde e montanhas baixas no horizonte, sob um céu azul límpido e ensolarado
“Eu queria algo que trabalhasse essa coisa das relações, que também colocasse de forma mais forte a questão dos seres humanos, da sociedade, daí escolhi a Geografia” | Foto: Arquivo pessoal

Tudo isso estava na origem da minha formação e foi me guiando na hora de escolher o que eu ia fazer enquanto curso superior. Eu queria algo que trabalhasse essa coisa das relações, que também colocasse de forma mais forte a questão dos seres humanos, da sociedade, daí escolhi a Geografia.

Fui bastante atravessada, encantada pelas excursões didáticas e os trabalhos de campo, o que me aproximou muito dessa diversidade de paisagens, de gentes do Nordeste, nos diversos semiáridos.

O que a gente consegue perceber com o olhar é fruto de um processo histórico de uma sobreposição de muitas camadas de tempos, de processos, de influências e isso foi assim bastante decisivo.

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YP – Podemos dizer, poeticamente, que você foi educando o seu olhar nesse processo? E nessa perspectiva da educação do seu olhar, qual foi o papel que a educação ambiental desempenhou?

ERC – Educar o olhar pra mim traz muito fortemente essa perspectiva da educação sensível. Da educação que envolve não só a cognição, mas também a nossa capacidade de perceber a partir de diversos sentidos. E isso pra mim esteve sempre muito próximo do que eu entendo como sendo um trabalho de educação ambiental. 

Praticamente emendei a graduação com o mestrado e com a seleção para o concurso público para entrar na Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). Então foi tudo ali misturado e acabei fazendo um trabalho não voltado para o Semiárido, mas a fim de entender os diversos conflitos que existem nessa relação entre sociedade e a apropriação, de certa forma, dos bens da natureza. Sempre de uma forma dual, conflituosa.

Foto de plano geral de duas pessoas, vistas de costas, caminhando por uma trilha de areia alaranjada em direção a formações rochosas imponentes. À esquerda, um homem usa chapéu de palha, camisa azul e calças verdes; à direita, uma mulher veste camiseta branca e calças pretas. O cenário é característico do Semiárido, com vegetação de Caatinga composta por arbustos secos e árvores baixas. Ao fundo, erguem-se grandes blocos de rocha sedimentar com topos achatados e coloração que varia entre o cinza e o ocre, esculpidos pela erosão. O céu está claro com nuvens leves, criando uma atmosfera de exploração e contato com a geodiversidade da região
“Isso que a gente chama, de uma maneira homogênea, de Semiárido, na verdade tem muitas nuances que fazem com que tenha características bastante diversas, inclusive do ponto de vista de potencial produtivo”, constata | Foto: Solange Coutinho

Quando eu entrei na Fundaj a gente fez, junto com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o primeiro curso de especialização em educação ambiental (acho que em 1993). Isso foi bastante significativo e também me acompanhou ao longo do tempo.

Então eu estudei uma situação que é aqui dentro da Zona da Mata do Estado Pernambuco, que foi um processo de constituição de um assentamento rural nos princípios da formação do Movimento dos Sem-Terra (MST) no fim dos anos 1980, em uma área de remanescente da Mata Atlântica. Toda essa questão do discurso preservacionista versus um discurso que olhava só a parte social.

Essa era uma das áreas prioritárias do programa, e buscamos uma solução que permitisse que os lotes dos agricultores pudessem ser viabilizados e ao mesmo tempo conservassem um pouco da área remanescente da Mata Atlântica. Isso também esteve e está no meu horizonte de trabalho.

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YP – Como pesquisadora, quando foi o seu primeiro contato com o bioma Caatinga?

ERC – Tem todo o momento das discussões didáticas no processo formativo de graduação e de mestrado. Mas, como profissional, meu primeiro contato foi a partir de uma pesquisa. Quando eu entrei na Fundaj, ela estava num processo de conclusão, mas eu ainda pude usufruir um pouco das reflexões e dos estudos relacionados a essa pesquisa na época, que chamava Áreas de Exceção do Nordeste Brasileiro, e que tinha um recorte forte para o Semiárido.

Eu diria que foi uma pesquisa um tanto pioneira, nesse sentido de entender que isso que a gente chama, de uma maneira homogênea, de Semiárido, na verdade tem muitas nuances que fazem com que tenha características bastante diversas, inclusive do ponto de vista de potencial produtivo.

A gente está falando de um contexto em que a própria expressão da natureza não humana é muito inteligente

Edneida Rabêlo Cavalcanti

A pesquisa, porque permite trabalhar com dados, com metodologia, me confirmou e me provocou a olhar sempre para o Semiárido nessa dimensão da sua diversidade, da sua complexidade e da sua dinâmica.

Além dessas diversas questões que permitem que se diga que a gente não tem um Semiárido, mas inúmeros semiáridos, no decorrer do tempo de um ano, por exemplo, também muda. Se pegar o período de chuva e de estiagem, tem mudanças significativas.

Sepegar do ponto de vista de um tempo mais longo, nem sempre isso aqui foi Semiárido. Isso também nos ensina o quanto a natureza é por si só muito dinâmica. A gente tem o Semiárido de uns 12 mil anos pra cá em termos de clima semiárido. 

A imagem apresenta uma paisagem clássica da Caatinga sob um céu azul profundo e sem nuvens. Em primeiro plano, à esquerda, destaca-se a silhueta de um cacto mandacaru alto e imponente, com seus gomos espinhosos bem definidos. À direita, a vegetação é composta por arbustos verdes e densos que emolduram a cena. No centro, o solo é coberto por uma areia clara e fina, pontilhada por pequenas flores brancas rasteiras. Ao fundo, o relevo revela formações rochosas arredondadas de tons ocre e uma serra suave que se estende pelo horizonte, cobertas por uma vegetação baixa e resistente. A iluminação solar intensa realça os contrastes entre o verde das plantas e o solo arenoso, transmitindo a sensação térmica elevada e a beleza árida da região.
Parque Nacional do Catimbau, uma reserva de fauna e flora da Caatinga, e de sítios arqueológicos | Foto: Edneida Rabelo Cavalcanti

YP – Essa diversidade e complexidade do Semiárido foram o que mais chamou a sua atenção?

ERC – E essa potência. Porque a gente está falando de um contexto em que a própria expressão da natureza não humana é muito inteligente. É um bioma no qual existe um processo adaptativo que é muito significante e que nos diz muito sobre como a natureza sempre dá um jeito para que a vida permaneça. 

Essa potência de adaptação me chamou muito a atenção. Das suas gentes também. Das gentes de agora e das gentes de antes, os nossos povos originários. Ver o quanto eles compreendiam essa diversidade, essa variabilidade existente na região enquanto eles foram se adaptando.

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YP – Sobre as suas metodologias, como são feitas suas abordagens de pesquisa no Semiárido atualmente?

ERC –  Eu trabalhei em pesquisas diversas e a última mais focada num recorte no Semiárido foi sobre a unidade de conservação como lugar educador. Uma das unidades de conservação que a gente aprofundou está no contexto semiárido, o Parque Nacional do Catimbau, no Estado de Pernambuco. Isso permitiu também refletir a partir de uma perspectiva mais ampla sobre áreas protegidas.

Nós usamos uma metodologia que incluía desde a questão do mapeamento colaborativo até a parte de entrevista com diversos atores sociais envolvidos com as áreas protegidas. As metodologias variam bastante, mas eu gosto muito de trabalhar com pesquisa qualitativa porque permite que a gente se aproxime da perspectiva das pessoas sobre os temas.

Selfie de  uma mulher branca, com cabelos curtos e grisalhos que sorri suavemente para a câmera usando óculos de sol redondos de armação escura, brincos de argola prateados e uma regata preta. Ela está em um mirante, com a mão esquerda apoiada em um corrimão metálico cinza. O plano de fundo revela uma vista panorâmica impressionante de um cânion profundo, por onde corre um rio em tons de azul escuro. As encostas são íngremes e cobertas por vegetação verde densa, e ao fundo, é possível avistar a estrutura de uma usina hidrelétrica cruzando o rio sob a luz suave do entardecer
“Precisamos ter uma abordagem muito respeitosa quando vamos trabalhar com as pessoas”, destaca | Foto: Arquivo pessoal

YP – Como é realizado o seu trabalho junto à comunidade local e como se dá essa relação?

ERC – Precisamos ter uma abordagem muito respeitosa quando vamos trabalhar com as pessoas. No campo da pesquisa, nós temos uma trajetória que envolve, inclusive, a aprovação de um comitê de ética. Também tem todo um trabalho, por exemplo, para que o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) também aprove o nosso trabalho dentro das unidades de conservação.

Tem essa área burocrática, mais do que isso, tem toda a forma como a gente se organiza para fazer um trabalho inicial de reconhecimento, de partilhar quais são os objetivos da pesquisa. De uma maneira geral, nas pesquisas que eu me envolvi, também sempre estabeleço um caminho de retorno que não é só o fim da pesquisa.

Foto de uma paisagem da Caatinga sob um céu azul com nuvens brancas e cinzentas. Em primeiro plano, à esquerda, destaca-se um mandacaru, um cacto alto com braços verdes e espinhosos que se projetam para cima, entrelaçados com galhos secos e retorcidos de árvores sem folhas. Ao fundo, a vista se abre para uma vasta encosta serrana coberta por uma vegetação predominantemente cinza e acastanhada devido à estiagem, com pequenos pontos de verde resistente no vale. O horizonte é marcado por montanhas suaves que se perdem de vista sob a luz clara do dia
Instituições brasileiras se articulam para colocar o Semiárido, a Caatinga e o Nordeste em uma posição de protagonismo no cenário da política climática nacional e internacional | Foto: Maristela Crispim

Fazemos uma construção com momentos, durante a pesquisa, em que podemos fazer uma devolutiva junto às comunidades. Tem também a construção de respeito às pessoas com as quais vamos trabalhar, entendendo que a construção do conhecimento é coletiva. A gente canaliza a partir da pesquisa, mas ela é no final das contas até qual autoral.

YP – Dos projetos que você participou, qual você gostaria de destacar pelo impacto significativo para a comunidade?

ERC – É cruel essa pergunta (risos), porque eu gosto muito do que eu faço e cada coisa é única. Eu vou trazer uma que aconteceu em conjunto com o meu processo de pesquisa de doutorado. 

Eu trabalhei numa área que é uma sub-bacia da bacia hidrográfica do Rio Capibaribe, no Alto Capibaribe, que é uma região semiárida. Ela estava num contexto de um projeto maior, o projeto Águas de Areias, desenvolvido por uma Organização Não Governamental (ONG) que eu sou sócia fundadora, a Associação Águas do Nordeste. 

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Ao mesmo tempo em que eu focava na pesquisa numa sub-bacia para tentar entender como se dava a gestão local da água, eu também estava inserida em iniciativas que tinham a ver com a formação de professores, com uma rede de gestão local da água.

Ela teve diversos outros impactos junto com outras pessoas que também estavam pesquisando na mesma área. Buscávamos trazer como reflexão o quanto a gestão da água precisa ser integrada e enxergar as diversidades existentes em cada contexto de bacia hidrográfica. Tiveram muitos produtos dessa iniciativa (pesquisa, formação, livro) de quatro anos de uma pesquisa potente.

O nome Águas de Areia foi devido à água que fica disponível no Semiárido mesmo no período de seca, em função da presença de aluviões dentro dos leitos dos rios secos. Tem diversos trechos de rios dentro do Semiárido em que passa o período de chuva, entra na estiagem ou mesmo no período de seca e quando se cava no leito do rio tem acesso à água através de cacimbas. É uma tecnologia antiquíssima.

O Governo Federal trouxe uma cara diferente para o Semiárido, no sentido da autonomia hídrica, segurança hídrica e soberania alimentar

Edneida Rabêlo Cavalcanti

YP – Durante as suas pesquisas, houve algum entrave em decorrência de questões envolvendo as políticas públicas?

ERC – Uma questão muito forte tem a ver com financiamento da pesquisa no País que ainda está muito aquém do que a gente precisa e do potencial que a gente tem. Para algumas áreas mais ainda, como as pesquisas na área social ou socioambiental. Eu diria que temos a descontinuidade a depender da prioridade que seja dada pelo governo que esteja na gestão. Isso tende a piorar como a gente percebeu na história recente do País.

Do ponto de vista do semiárido, tivemos algumas mudanças significativas e que geraram conquistas ao ponto das pessoas se mobilizarem e não quererem abrir mão disso. Essa mudança de perspectiva, de ter políticas emergenciais ou políticas muito paternalistas para algo mais estruturante de sair dessa lógica de combate à seca ou das políticas puramente hidráulicas, muitas vezes concentradas em propriedades que não beneficiava a população como um todo.

Foto colorida colheita de melancia feita por um homem negro de camisa laranja e uma mulher negra de blusa preta com a ajuda de um carrinho de mão carregado de frutas ja colhidas
Colheita de melancia no quilombo São Bento do Juvenal, em Peritoró, Maranhão | Foto: Ivanessa Gomes

Eles (Governo Federal) trouxeram uma cara diferente para o Semiárido, no sentido da autonomia hídrica, segurança hídrica e soberania alimentar. E eu acho que isso tem que ser pontuado.

YP – Quais conflitos sociais você identificou junto às comunidades em suas pesquisas?

ERC – O meu olhar sempre foi mais nessa temática dos conflitos socioambientais. No trabalho do Águas de Areias, um dos conflitos era a retirada de areia para a construção civil versus a presença dos poços e cacimbões para o fornecimento de água. Ou seja, só tem a presença da água de aluvião porque tem a areia, e se ela é retirada de forma indiscriminada, compromete o acesso a essa água. Esse é um dos exemplos. 

Homem de costas vestido com calças jeans, camisa de manga comprida arregaçada azul clara, bota marrom e chapéu de palha, em terreno de terra avermelhada pedregosa em meio a vegetação rala
A extração de lenha, o uso do fogo e a pecuária extensiva têm tido grandes impactos e gerado desmatamento e desertificação no bioma Caatinga | Foto: Camila de Almeida

Um outro é a questão dos dessalinizadores. Depois passa a ter um outro problema que é o rejeito da dessalinização que, se não for gerido de forma adequada, começa a trazer problemas que salinizam o solo. O tema que eu trabalhei na Zona da Mata era a questão do acesso à terra e ao mesmo tempo da proteção de áreas remanescentes da Mata Atlântica.

O tempo inteiro lidamos com o tensionamento e muitos deles vão se explicitando como conflitos. Recentemente eu me envolvi no processo de elaboração do Plano Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação aos efeitos da seca e foi muito forte nos seminários a queixa relacionada a esse modelo de implementação das eólicas e das plantas fotovoltaicas. Outro exemplo de tensão e conflito.

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YP – Como você lida na resolução de conflitos envolvendo a prioridade na preservação de áreas ambientais e o desenvolvimento econômico e/ou urbano?

ERC – Tem uma coisa muito forte nessa nossa lógica de desenvolvimento. Ela vem sempre numa perspectiva muito imediatista e com bastante afastamento ainda dessa compreensão de que no fim das contas se você não cuida compromete às vezes a própria atividade econômica que está relacionada.

Buscar alternativas, às vezes, está dentro de um campo de negociação que permite que você tenha atividade sem comprometer a conservação. Se você trabalha com pesquisa subsidiando políticas públicas e com gestão e governança em cima desses recursos, minimiza alguns impactos.

A maior dificuldade das comunidades é erem ouvidas

Edneida Rabêlo Cavalcanti

Se você vai só na lógica do que eu quero retorno de curto prazo, o resultado acaba sempre sendo desastroso, comprometendo outra atividade. Isso quando não são impactos mais severos, como no caso de Brumadinho, em Mariana (MG).

YP – O que você considera o desafio mais árduo para essas comunidades no enfrentamento desses conflitos?

ERC – Acho que é a dificuldade para serem ouvidos. Muitas vezes a dificuldade de se ver num contexto mais amplo, ou seja, o que é que aquilo que está acontecendo naquela comunidade tem a ver com um contexto maior? Como é que está relacionado às políticas públicas que estão sendo implementadas e a condição de organização para se opor a isso, para se fazer ouvir diante, muitas vezes, de uma forma muito impositiva com que as coisas chegam nos territórios.

Foto panorâmica que destaca um aerogerador (turbina eólica) em um dia ensolarado. O céu é um azul profundo, pontilhado com nuvens brancas, fofas e dispersas. A turbina, de cor branca, ergue-se proeminentemente no centro-direita da cena, com suas duas pás visíveis estendendo-se em direção ao canto superior. Na base da turbina, diretamente em frente ao seu mastro, está uma árvore seca e de galhos despidos, que contrasta com a estrutura moderna. O primeiro plano é composto por vegetação rasteira seca e marrom, indicando um clima mais árido, com um caminho de terra no centro inferior que se estende para a paisagem. Ao fundo, uma linha de horizonte revela colinas suaves sob o céu, e postes de energia podem ser vistos à esquerda
Com a necessidade de descarbonizar a economia, a disponibilidade de energias renováveis é vista como um atrativo para novos investimentos | Foto: Maristela Crispim

YP – Como você avalia a construção de empreendimentos, como as eólicas e centro de dados (data centers), na região do Semiárido brasileiro?

ERC – Eu vou trazer uma reflexão, que não é necessariamente minha, mas eu acho que várias pessoas refletem a esse respeito. Me incomoda muito essa forma com que as políticas públicas e as iniciativas continuam chegando para a região, que é numa perspectiva da redenção. E já teve várias versões nessa lógica da redenção. Como o dos açudes, da algaroba e eu diria que até o modelo da transposição entra nessa lógica, ou seja, vai ser a solução

Na verdade, não tem uma solução única. E o formato que essas coisas chegam é sem um diálogo com os limites e as possibilidades existentes dentro dos territórios. Elas têm uma faceta muito cruel em relação aos territórios. Porque é um modelo que não dialoga, não é construído de uma maneira coletiva, e as consequências estão sendo vivenciadas e denunciadas de forma frequente nos últimos tempos.

A desinformação climática ou entra na lógica do negacionismo, ou entra na lógica do medo. Ela é maléfica em todos os sentidos

Edneida Rabêlo Cavalcanti

Os contratos, os esclarecimentos sobre as consequências, os impactos em relação à saúde, a negociação de quanto vai estar afastado das comunidades… Enfim, é um conjunto de coisas, inclusive de negociação em relação ao uso mesmo da terra. Esse formato de redenção é maléfico seja qual for a atividade e essa lógica de que você vai ter a salvação para aquele contexto.

YP – Você acredita que a desinformação climática contribui para a expansão desses empreendimentos?

ERC – Esses empreendimentos, principalmente eólica e fotovoltaica, vêm de uma lógica da mudança na matriz energética, que é interessante que ocorra. Mas ela não pode vir sem a reflexão do “E depois? E os impactos dos benefícios gerados?

Foto de um cenário de geração de energia renovável em uma paisagem semiárida. No primeiro plano, aparecem fileiras de painéis solares inclinados, ocupando grande parte da base da foto. Ao fundo, sobre uma colina de vegetação seca, cinco aerogeradores eólicos com pás brancas se destacam contra o céu azul.
Usina híbrida (eólica e solar) na Bahia | Foto: Ulgo Oliveira

A desinformação climática contribui para um conjunto de coisas que a gente não está dando conta porque, ou entra na lógica do negacionismo, ou entra na lógica do medo. Ela é maléfica em todos os sentidos.

Mas, nesse tema específico das eólicas e das solares, eu acho que vai muito nessa direção de que ela é importante porque diminui o uso de outras formas de energia, principalmente quando a gente pensa no caso do consumo de petróleo, mas isso precisa ser construído de outra forma, em outros modelos.

O pessoal da Borborema (Polo da Borborema, PB) tem uma campanha que eu acho muito interessante: Energia eólica sim, mas não assim. Eles não estão negando a importância daquele projeto, mas se contrapondo à forma como ele é feito.

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YP – Com a provável expansão desses empreendimentos, como você enxerga o futuro do Semiárido nos próximos 10 anos?

ERC – A gente tem um acúmulo nessas últimas décadas, fruto de um reposicionamento, inclusive, não só das instituições de pesquisa, mas principalmente da sociedade civil em relação à maneira de se olhar para o Semiárido. 

Há um avanço no conhecimento sobre esse potencial existente no Semiárido e no bioma Caatinga que possibilita respostas que podem ser muito interessantes, inclusive diante da questão das mudanças climáticas.

Esta fotografia em plano aberto e perspectiva aérea revela uma paisagem exuberante do semiárido brasileiro, destacando a convivência harmoniosa entre a infraestrutura hídrica e a natureza. No centro inferior, uma cisterna de placas circular com cúpula branca destaca-se no terreno, conectada a um amplo calçadão de cimento em declive no primeiro plano, projetado para captar a água da chuva. Ao lado, encontra-se uma casa de campo simples com telhado de barro, antena parabólica e um carro branco estacionado no quintal. A propriedade é cercada por uma densa vegetação verde que cobre morros ondulados ao fundo, onde um rio serpenteia pelo vale sob um céu azul vibrante, repleto de nuvens brancas e volumosas, simbolizando a segurança hídrica e a resistência da agricultura familiar.
Comunidade agrícola em Aroeiras, PB | Foto: Ricardo Araújo / ASA

Temos um reposicionamento atrativo que demanda hoje políticas públicas em uma outra perspectiva, que não mais aquela emergencial, mas na lógica da convivência com o Semiárido. O desafio que a gente enfrenta agora são mudanças no tempo histórico, rápidas, decorrentes da maneira como a gente se relaciona com essa dimensão da existência da vida. 

Temos que fazer adaptações num prazo muito curto, que envolve não só trabalhar com a tecnologia como somos apresentados à ela, mas a tecnologia no sentido dos equipamentos tecnológicos.

A gente talvez possa voltar para esse conjunto de aprendizados que os nossos povos, que a nossa sociobiodiversidade também acumulou ao longo do tempo. Não é qualquer modelo de educação que nos leva a uma possibilidade.

O modelo da exploração massiva, sem o caráter conservacionista, precisa ser redimensionado

Edneida Rabêlo Cavalcanti

Eu considero que são atenções que a gente precisa ter num processo de uma escuta horizontal, uma diversidade de conhecimentos e de saberes que em diálogo pode nos levar a um bem viver no Semiárido. Para isso, as instituições de ensino e pesquisa precisam de abertura, de ter ou se posicionar de uma maneira diferenciada nesse processo de construção de conhecimento.

YP – Que inovações na área da tecnologia você acredita que podem ser aplicadas na região Semiárida para impulsionar o desenvolvimento e conservação do bioma?

ERC – Essa questão das tecnologias adaptadas e apropriadas pelas comunidades e pela agricultura familiar é um ponto importante. Mas a gente precisa entender que, em termos de área, é a grande propriedade que predomina. E essa grande propriedade, a lógica de produção precisa ser revista, como o modelo do agronegócio.

Foto colorida de mulheres, homens e crianças pousando em pé para foto segurando mudas de bananeira. Muitos sorriem
Moradores do quilombo São Bento do Juvenal, em Peritoró, Maranhão, celebram a colheita | Foto: Ivanessa Gomes

O modelo da exploração massiva, sem esse caráter conservacionista, precisa ser redimensionado porque, do ponto de vista de área e de impacto, ele é o grande desencadeador dos nossos graves problemas socioambientais na região.

YP – Na sua trajetória, o que mais inspirou você a seguir no campo da pesquisa junto às comunidades do Semiárido?

ERC – Uma coisa que me impressiona e me alimenta é a simplicidade e a possibilidade de viver bem no Semiárido. Existe uma riqueza cultural que é de ordem, eu diria, até espiritual. Não no sentido religioso, mas de potência de vida, que precisa ser mais valorizada. 

(A relação com a Caatinga) Não é só de subsistência, é de viver bem ou de bem viver no Semiárido. Isso me anima.

Edneida Rabêlo Cavalcanti

De respostas que são dadas, de criatividade diante de situações extremas e que isso traz uma esperança, aquela do “esperançar” de Paulo Freire, que não é uma esperança passiva, é uma que vem com a ação. 

Se você pensa nos povos e comunidades tradicionais existentes nos semiáridos, que são muitos e diversos, cada um deles tem características, formas de conviver com o ambiente semiárido que prova que é possível essa relação na potência de vida. Não é só de subsistência, é de viver bem ou de bem viver no Semiárido. Isso me anima.

IP – Você como mulher pesquisadora, que legado espera deixar para as próximas gerações?

ERC – Eu não romantizo de forma alguma a caminhada que eu precisei fazer para ser uma pesquisadora. Tive dois filhos no meio de um mestrado e doutorado. O trabalho de campo nunca foi simples.

O Semiárido tem beleza, mistério, respostas e uma cultura pulsante. É um universo muito rico para a gente se debruçar sobre ele

Edneida Rabêlo Cavalcanti

Pude, em alguns momentos, contar com uma rede de apoio maior, outras vezes menor, mas é muito desafiador para nós mulheres estarmos no mercado de trabalho, nesse campo da ciência mantendo maternidade e uma casa. Ainda é muito precário ou às vezes muito elitista.

O legado é a contribuição que pude dar com o relatório de pesquisas ou artigos publicados mas, principalmente, nessas interações em processos formativos em oficinas, cursos, em situações de poder contribuir e intervir com políticas públicas. É rico trabalhar com esse campo da pesquisa, olhar para o contexto do Semiárido e para a potência que existe para o campo de estudos que ainda existe olhando para esse território.

Fotografia de paisagem de montanha próxima e mais ao fundo à esquerda da imagem com vegetação verde e céu azul com poucas nuvens
Serra do Triunfo, na divisa entre Pernambuco e Paraíba. O clima é subúmido, caracterizada pela presença de Caatinga | Foto: Antônio Carlos Barros Corrêa

YP – A presença feminina no ambiente da pesquisa ainda é pequena. Que conselho você quer dar para jovens meninas que estão ainda indecisas sobre decidir os rumos do seu futuro acadêmico?

ERC – Escutem o que lhe pulsa, o que lhe chama atenção e não tenha receio de se jogar diante das possibilidades. Pensem numa formação que possa ser de especialização, mas não percam de vista um olhar mais abrangente, integrado, sistêmico. Não deixem de lado uma formação que também é da sensibilidade. 

Eu não acredito no ser humano que olha apenas para a formação acadêmica, pura e simplesmente. Se joguem na aventura que é a pesquisa e viver mesmo! A gente precisa olhar para a realidade com essa potência que ela nos traz, inclusive para desvendar as coisas para além da aparência.

O Semiárido tem beleza, mistério, respostas e uma cultura pulsante. É um universo muito rico para a gente se debruçar sobre ele. Não dá pra olhar essa vasta região do Brasil sem enxergar a complexidade, a dinâmica e a diversidade que existe. Além da potência econômica e cultural nesse universo.

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