A defesa da vida é pauta de todos os povos

Do lado esquerdo, extensas dunas de areia branca e ondulada se estendem em direção ao oceano azul profundo no horizonte, com pequenas lagoas de água doce formadas entre os vales de areia. Do lado direito, uma vegetação densa e muito verde cria uma linha divisória nítida com as dunas, revelando áreas de mata preservada e pequenas propriedades rurais com plantações organizadas. Ao fundo, no canto superior direito, é possível ver uma fileira de aerogeradores brancos (turbinas eólicas) e o ponto onde um rio encontra o mar
‘Território não é mercadoria. Água não é vetor de lucro. Cultura não é espetáculo. São elementos essenciais à vida e ao futuro de todas as comunidades’, escreve Luan Tremembé | Foto: Caio Mota / A Proteja

Se 2025 deixou marcas nos territórios, 2026 começa reafirmando que as lutas seguem, e muitas vezes com os mesmos desafios, apenas em novos tempos. Continuamos a enfrentar conflitos ambientais, pressões econômicas e a disputa por nossos territórios, ao mesmo tempo em que as mudanças climáticas alteram profundamente nossos modos de vida.

No Ceará, um dos temas que tem atravessado o início deste ano é o comportamento das chuvas. Após meses de espera e incertezas, os últimos dias de janeiro foram marcados por registros de precipitações em diferentes regiões do Estado, segundo dados da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme). Houve volumes significativos tanto no litoral quanto no interior, com registros importantes em municípios como Jijoca de Jericoacoara e também na capital, Fortaleza.

Essas chuvas, embora necessárias e aguardadas, não podem ser vistas apenas como um alívio climático. Elas são, sobretudo, um retrato de um tempo que mudou. Por gerações, as comunidades indígenas conheciam os ciclos da natureza, sabiam quando plantar, colher e se preparar para os períodos de estiagem. Hoje, a irregularidade das chuvas, a intensificação de eventos extremos e os atrasos na quadra chuvosa revelam os efeitos concretos do aquecimento global sobre os territórios, impactando diretamente a agricultura familiar, a segurança hídrica e a vida cotidiana nas aldeias.

Ao mesmo tempo, enfrentamos projetos predatórios que persistem em 2026 como ameaças concretas aos nossos modos de vida e ao meio ambiente. A disputa sobre a exploração de urânio no Ceará, como no complexo de Itataia/Santa Quitéria, exemplifica conflitos que não se encerraram no ano passado. Organizações sociais, comunidades camponesas e povos indígenas seguem alertando para os riscos de contaminação de água, impactos à saúde e violação de direitos territoriais, especialmente quando a consulta prévia, livre e informada não é respeitada em sua integralidade.

Da mesma forma, o avanço do turismo predatório em áreas costeiras do nosso Estado continua a transformar natureza e cultura em mercadoria, expulsando comunidades e degradando ambientes que existem há séculos como territórios de vida, saberes e proteção. Não é turismo sustentável se ele ignora as vozes e as necessidades dos povos que historicamente guardam esses lugares.

Os territórios indígenas, mais do que espaços físicos, são sistemas de vida que mantêm florestas, nascentes, biodiversidade e saberes ancestrais essenciais para enfrentar a crise climática global. Onde há povos indígenas, há menos desmatamento, maior proteção de água e conservação da biodiversidade, e essa proteção é comprovada em estudos nacionais e internacionais. Mas continuamos a ver nossa presença negada ou reduzida a fala de ocasião por projetos que priorizam lucro sobre vida.

Em um ano eleitoral como 2026, precisamos lembrar que as pautas ambientais não são neutras. Elas revelam escolhas políticas que afetarão diretamente a sobrevivência dos povos indígenas, o equilíbrio dos sistemas naturais e o futuro das novas gerações. Defender o meio ambiente significa defender os direitos territoriais, a demarcação de terras, a autonomia indígena e o respeito aos modos de vida tradicionais.

Território não é mercadoria. Água não é vetor de lucro. Cultura não é espetáculo. São elementos essenciais à vida e ao futuro de todas as comunidades.

A crise climática já está entre nós, nas chuvas tardias, nos tempos que mudam, nas estiagens prolongadas, nos indicadores que já não batem com os calendários tradicionais que nossas comunidades conheciam há gerações.

2026 precisa ser um ano de organização, mobilização e resistência. Precisamos disputar não apenas projetos políticos e cargos, mas agendas, trajetórias, compromissos e práticas. Precisamos fortalecer candidaturas comprometidas com a vida, com o território, com os direitos indígenas e com a justiça ambiental. Precisamos dar voz aos conhecedores e guardiões das florestas, dos rios, das serras e das dunas, não apenas como símbolos, mas como protagonistas na construção de um Brasil verdadeiramente sustentável e democrático.

Porque a defesa da vida é pauta de todos os povos.

E nisso, nossos caminhos permanecem firmes: de luta, de memória e de futuro.

Quer a apoiar a Eco Nordeste?

Seja um apoiador mensal ou assine nossa newsletter abaixo: