Fortaleza completa 300 anos marcada pela especulação imobiliária, mas movimentos seguem firmes na defesa dos parques urbanos

São 5h30min da manhã de sábado, 28 de fevereiro. Chove em Fortaleza (CE), coberta por quase toda a extensão por um aglomerado de nuvens densas e acinzentadas. Os passarinhos cantam o novo dia e se deliciam com o clima, e é por eles que esquentamos tão cedo a água do café.
Neste dia, ocorre o segundo Vem Passarinhar CE do ano, projeto voluntário do Instituto Retriz que convida os fortalezenses a adentrar as trilhas do Parque Estadual do Cocó e observar aves. O Parque do Cocó é o maior parque natural em área urbana do Norte e do Nordeste e o parque estadual mais visitado do Brasil, sendo um dos ícones naturais da Cidade.



A chuva não impediu o movimento; pelo contrário, garantiu uma trégua durante a passarinhada. Munidos de binóculos e câmeras, o grupo de 20 pessoas passou duas horas ocupando o parque à procura de espécies raramente lembradas como moradoras do habitat urbano: anus-pretos (Crotophaga ani), patos-do-mato (Cairina moschata), surucuás-de-barriga-vermelha (Trogon curucui) e tantos outros. Todos habitantes originários dos remanescentes da natureza fortalezense, preservada a partir de décadas de luta do movimento ambientalista.
Ao todo, Fortaleza abriga 27 parques urbanos distribuídos em 32 bairros da Cidade, dos quais 14 são parques de lagoas e cinco são parques lineares, funcionando como corredores verdes.
Do total, 26 são geridos pela Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma), enquanto o Parque Estadual do Cocó é gerido pela Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima (Sema). O Parque Zoobotânico do Passaré ainda não possui instrumentos legais regulamentatórios, portanto não aparece no mapa acima.
“O Vem Passarinhar abre as janelas da percepção sobre a nossa biodiversidade. Afinal, todo mundo tem história com um passarinho”, reflete a bióloga Cecília Licarião, 36, presidente do Instituto Retriz e uma das fundadoras do Vem Passarinhar no Ceará, inspirada no projeto do biólogo Henrique Rajão no Parque Botânico do Rio de Janeiro.
No processo de colocar a biodiversidade “no holofote”, projetos como o Vem Passarinhar dão protagonismo aos parques urbanos. Em Fortaleza, o Parque do Cocó vira o espaço perfeito pela estrutura construída: são mais de dois quilômetros de trilha, fácil localização, estacionamento, banheiros e locais para comer no entorno.

“Pela localização do Parque do Cocó, o nosso público é muito rotativo. Em todas as edições aparecem pessoas novas, que acabam virando ‘soldados da natureza’”, comenta a bióloga. Ela ressalta a participação de crianças de colo, idosos e muitas crianças autistas com hiperfoco em aves.
As 30 vagas são concorridas. No grupo de WhatsApp do projeto, são necessários menos de dois minutos para o formulário de inscrição acusar a lotação máxima. “Consegui me inscrever!!!”, comemora uma participante. “Consegui também kkkkkk Tô toda me tremendo. Vai ser minha primeira passarinhada!”, responde outra.

O grupo, no entanto, funciona como um mobilizador de passarinheiros, dos profissionais aos amadores. Diariamente, pessoas do Ceará inteiro mandam fotos de aves avistadas em diversas áreas do Estado, principalmente em Fortaleza. Desde fevereiro, houve registros no Parque Rachel de Queiroz, no Lago Jacarey, no Parque da Liberdade – Cidade da Criança e no Centro Administrativo do Cambeba.
Nas lentes deles, os parques de Fortaleza florescem como um respiro na urbanidade, provando que o habitat urbano é, também, lar de seres não-humanos. No grupo, as fotos compartilhadas viram multiplicadoras de educação ambiental, com passarinheiros experientes identificando espécies e o coletivo mapeando novas populações de aves pela Cidade.

“(Eu não imaginava que seriam) tantos passarinhos assim, mas eu já sabia que tinham bastante, só não de tantas espécies. Tinha uns muito parecidos que eu achava que eram da mesma espécie, mas não eram”, comenta Lucas Gomes, de 8 anos de idade. Ele participou do Passarinhar de 28 de fevereiro passado com a tia, a engenheira de produção Rafaela Ribeiro de Moura, 41.
“Eu preciso da natureza. Eu tenho um vínculo muito forte com ela, é o que me reenergiza. Eu já conhecia o Cocó, mas esse passeio trouxe um olhar diferente. Porque uma coisa é um parque que a gente vem às vezes com as crianças para brincar, outra coisa é você conhecer tudo que está ali e tudo que está envolvido. Eu acho que é um privilégio muito grande a gente ter um parque tão grande, tão rico”, reflete Rafaela.

Parques urbanos lutam por
manutenção e permanência
“A gente tem parques urbanos com grande potencial, mas a gestão dos parques passa por uma miopia”, avalia Cecília Licarião. “Faltam investimentos de mobiliário, para as pessoas se sentirem mais confortáveis; faltam placas bonitas que chamem a atenção, torres de observação, plataformas suspensas para o período chuvoso… A gente precisa melhorar muito ainda”, define.
A cofundadora do Movimento Proparque Luísa Vaz, 70, acrescenta que a sociedade civil “já foi mais ativa na defesa dos parques em Fortaleza”, atribuindo a queda no “ânimo” à “falta de resposta do poder público”.

“Eu considero a situação dos parques municipais uma lástima. Faltam manutenção, segurança, gestão e plano de manejo”, elenca. “O Parque Rio Branco, por exemplo, está sofrendo pressão de usos diversos após a reforma e não existe a preocupação com a preservação do meio ambiente, a começar pela própria reforma do parque em 2023/2024, que fez impermeabilizações excessivas e colocou grama sintética às margens do Riacho Rio Branco”, acrescenta.
“Alguns movimentos se mantêm nos territórios e ainda existem pessoas interessadas na questão ambiental, mas eu creio que poderíamos exercer uma pressão maior sobre o poder público se estivéssemos mais organizados, como já aconteceu nas décadas de 1980 e 1990”, opina a ativista.
O Movimento Proparque surgiu em 1995 e foi crucial para a proteção do Parque Rio Branco, localizado no bairro Joaquim Távora. Na época, Luísa Vaz e o marido, Ademir Costa, denunciaram o despejo de entulho no local por caminhões de construção civil.

Para isso, registraram as irregularidades, mobilizaram a vizinhança e formaram uma rede de moradores engajados na proteção do parque. Três décadas depois, o Movimento Proparque consolidou-se como uma importante frente comunitária de defesa ambiental urbana em Fortaleza.
“Nesse tempo, tivemos muitos embates com a Prefeitura e com pessoas que queriam usar o parque em proveito próprio”, relembra Luísa. “O próprio poder público quis, em diversas ocasiões, desfigurar essa Zona de Preservação Ambiental (ZPA) 1 e Área de Proteção Ambiental (APP) com seus projetos. A nossa luta para manter as características ambientais do Parque gerou muitos conflitos, não apenas com o poder público, mas também com pessoas do bairro, infelizmente”, completa.
A movimentação em torno do Plano Diretor Participativo e Sustentável de Fortaleza (PDPS) reforça o cerco contra as áreas verdes da Cidade. Após seis anos de incontáveis reuniões públicas entre sociedade civil organizada, setor econômico e o poder público, o Plano aprovado pela Câmara Municipal de Fortaleza (CMFor) diminuiu a proteção de 110 áreas ambientais ou sociais, segundo levantamento do O POVO+.



A flexibilização se deu por meio de duas emendas da CMFor, que modificaram a proposta idealizada pelos técnicos do Instituto de Pesquisa e Planejamento de Fortaleza (Ipplan Fortaleza) e aprovada pela Conferência da Cidade, que havia feito ajustes para prever ainda mais proteção socioambiental.
Dezenas de artigos nos emendões refletiram em 50 exclusões ambientais, muitas possíveis pela mudança de grau de proteção de uma área verde, como ao mudar uma Zona de Proteção Ambiental (ZPA), focada na preservação ambiental, para uma Zona de Uso Sustentável (ZUS), que autoriza construções.
“O meu diagnóstico é que o Plano Diretor não traduz aquilo que a gente reivindicou”, pontua Paulo Ricardo Schneider, 22, historiador e facilitador no Greenpeace Fortaleza. “Ele tem alguns elementos que nós conseguimos acrescentar com muita luta. E eu sempre afirmo isso, porque não foram chás em gabinete de vereador… foi reivindicação popular, foi fazendo ocupação nos lugares, fazendo manifestação, gritando mesmo lá na galeria da Câmara Municipal”, relata.
Parques, especulação
imobiliária e racismo ambiental
Segundo Paulo Ricardo, a especulação imobiliária é o motor de Fortaleza. Basta revisitar o mapa do começo da matéria para identificar a pressão dos parques urbanos pelo entorno urbanizado. “Infelizmente, em Fortaleza o parque urbano está a serviço de”, pondera.

Ele exemplifica com o Parque Linear Rachel de Queiroz, o segundo maior parque de Fortaleza, localizado no bairro Presidente Kennedy. Em 2023, o projeto de requalificação da área, iniciado em 2022, venceu a categoria de melhor paisagismo de parques e espaços abertos, do prêmio LOOP Design Awards, e a categoria Arquitetura Inovadora, do Iconic Awards.
O bairro Presidente Kennedy começou a ser ocupado a partir de meados de 1950 por migrantes do interior do Ceará que buscavam empregos nas grandes fábricas da região e foi se adensando durante o período da Ditadura Militar. Lá, construiu-se o primeiro Conjunto Habitacional de Fortaleza. Atualmente, o bairro é o novo foco do setor imobiliário, com a chegada de condomínios residenciais, shoppings e complexos de lojas.
“O Parque Rachel de Queiroz só chegou após os condomínios, mesmo a comunidade lutando há anos (pela requalificação do parque)”, indica o historiador. “Se você olhar o horizonte do Parque Rachel de Queiroz, está tomado de condomínio. E a galera que habitava ali antes? Cadê esses moradores mais antigos que também lutaram para aquele parque existir?”.
O ativista ainda destaca que o modelo de parque urbano implementado no Rachel de Queiroz “não é o ideal”. Isso porque boa parte do local está concretado, preservando apenas o verde do entorno das lagoas; além disso, reforça, o espaço é majoritariamente ocupado por food trucks.
“Nós não estamos aqui querendo dizer que food truck é ruim. É importante as pessoas estarem num lugar agradável, mas até que ponto ele está a serviço do comércio e não a serviço de uma qualidade de vida?”, questiona.
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Ao mesmo tempo, os parques urbanos localizados nas periferias são escanteados. “No Parque Urbano Lagoa da Viúva, aqui no grande Bom Jardim, os estudos para o Plano de Manejo são insuficientes. Foram duas entrevistas online. O levantamento de fauna e de flora foi feito na borda do parque”, critica.
“Eles não entraram no Parque sob o argumento de que é uma área de risco, de que a criminalidade não nos permite entrar no Parque. Na verdade, no mesmo período em que os estudos do Plano de Manejo estavam sendo feitos sem o movimento social saber, o movimento social estava fazendo trilha dentro do Parque, com crianças de diversas idades”, contextualiza.
E enquanto os planos de manejo são adiados, a simples delimitação de uma poligonal falha na proteção dos parques urbanos. Para Schneider, a luta é garantir que as áreas verdes de Fortaleza saiam da posição de “peças estéticas” para a classe rica e transformem-se em espaços de segurança alimentar e preservação de saberes tradicionais.
Nós nos recusamos a morrer,
Paulo Ricardo Schneider, historiador e facilitador do Greenpeace
a não fazer brotar
“Eu estou num processo agora de elaborar uma campanha permanente com outras pessoas, chamada Nenhuma favela sem floresta. A ideia é que para cada hectare de área deve haver um quantitativo de área permeável de mata nativa estabelecida”, compartilha o ativista. “E aí a gente não quer fazer 150 praças num quarteirão, não. Nós queremos uma área contínua, que pode ser entendida como um corredor ecológico”.
A campanha seria uma forma de combater o racismo ambiental e garantir às periferias segurança climática, contribuindo como um pilar para a resiliência das periferias contra a crise climática.

Ele também destaca que os corredores devem ser pensados usando uma metodologia territorializada, na qual a comunidade deve indicar ao Estado o que deseja, e não o contrário: “aliás, o que nós sempre disputamos na escrita do texto do Plano Diretor foi que essa adaptação (climática) fosse proposta pela comunidade e o Estado adaptasse; porque só a comunidade pode dizer o que ela necessita”.
Mesmo com as diversas pressões no campo político e econômico, o historiador e ativista reforça a resiliência das periferias e o engajamento delas na luta socioambiental. Ele conta como foi, na adolescência, perceber na mãe a figura de uma mulher engajada na luta por moradia e saneamento básico, indissociáveis da pauta ambiental.
“A nossa maior conquista, nesse momento, é o fato de as comunidades periféricas ainda conseguirem plantar no nosso chão”, orgulha-se. “Isso significa que nós nos recusamos a morrer, a não fazer brotar”.
No próximo episódio, confira a entrevista com Liana Feingold, especialista em Neuroarquitetura e Urbanismo Social e cofundadora da Estar Urbano, na qual ela disseca um pouco da “alma” de Fortaleza e aponta o caminho para uma Cidade onde a dignidade de morar seja o alicerce para o futuro.


