
O Planalto da Borborema é uma região de terras altas no Nordeste brasileiro que se estende por Alagoas, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Este imponente relevo age como uma barreira que retém a umidade, influencia o clima seco do Sertão e o frescor do Agreste e do Brejo. É neste cenário, no território paraibano, que se ergue um movimento que cresce há quase duas décadas.
Pelo 17º ano consecutivo, a Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia ocupa as ruas de Remígio (PB). Testemunhar a força feminina em defesa da vida em seu sentido mais amplo – pela integridade das mulheres e pela preservação da Caatinga – é um ato de resistência.
O movimento deste 12 de março demonstrou que vozes unidas ecoam mais longe contra a violência de gênero e as violações de direitos. A Agroecologia surge como um poderoso instrumento de manutenção da vida e empoderamento feminino.
As mulheres marcham contra todo tipo de abuso, incluindo as pseudo soluções para a crise climática que favorecem interesses corporativos, mercantilizam bens comuns e destroem o bioma. Em vez disso, a Marcha defende a agricultura familiar agroecológica, que respeita os territórios e os modos de vida tradicionais.
A Marcha

Gizelda Beserra, vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Remígio e uma das coordenadoras do evento, conta que a iniciativa nasceu dentro do Movimento de Mulheres Camponesas do Sindicato.
“Surgiu por questões que percebemos ao ir para as reuniões nas comunidades. Primeiro, só quem aparecia eram os homens; as mulheres só surgiam na hora de servir o café. Daí, fizemos um processo de mobilização para trazer visibilidade ao trabalho feminino”, recorda.
Para que a família passasse a notar o papel da mulher na propriedade e no arredor de casa, dois temas centrais foram usados como porta de entrada: os fundos rotativos solidários e as plantas medicinais. “Eram temas que os maridos ‘deixavam’ as mulheres saírem de casa para discutir. Nas reuniões, aproveitamos para introduzir, de forma sutil, o tema da violência. E elas começaram a fazer os relatos”, explica Gizelda.
O que começou com 350 mulheres em uma parceria com o Fórum dos Assentados, transformou-se em um marco regional. “Hoje estamos na 17ª marcha, e mobilizamos entre 5.000 e 6.000 mulheres”, orgulha-se.
A Agroecologia

Para Gizelda, Agroecologia é sinônimo de autonomia, segurança e auto sustentabilidade: “é dizer que estamos presentes, fortes, fazendo agricultura e que somos parte essencial desse processo. É um saber que transmitimos para nossos filhos”.
Durante a preparação para o evento deste ano, reuniões comunitárias em Remígio levantaram preocupações sobre as mudanças climáticas e a concentração de terras. “Relataram que não sabem mais quando começa o inverno e sofrem com o calor intenso. Além disso, quem tem dinheiro está comprando terras para lazer ou pecuária extensiva, usando veneno para matar o mato e criar pasto”, alerta.
Ela ressalta que o enfraquecimento da agricultura no campo atinge primeiro as mulheres, muitas vezes empurradas para as periferias das cidades: “as mulheres que permanecem no sítio fazendo Agroecologia conseguem viver em uma situação muito melhor de sustentabilidade e harmonia”.
As ‘renováveis’

Adivana Aguiar Almeida, presidente da Associação dos Produtores do Assentamento Queimadas, traz um alerta sobre o avanço de grandes empreendimentos de energia renovável no território.
“As empresas abordam as pessoas individualmente. Eu, como liderança, fui procurada e disse não. Não apoio o que vem destruir a natureza e a nossa Caatinga. Nossa área de assentamento serve para produzir e preservar, não para entregar a projetos que só fortalecem as empresas”, pontua. Adivana defende que as comunidades precisam, sim, de energia limpa, mas de forma descentralizada, que ajude as mulheres em seus próprios canteiros e produções.
Ela reforça a importância da resistência coletiva contra a pressão de usinas eólicas em áreas de reserva ao conclamar as mulheres para marcharem unidas: “não vão na conversa bonita de quem chega na comunidade. Escutem suas lideranças. A Agroecologia é o fortalecimento desse elo entre nós”.
E encerra com um chamado à união e a lutar contra o veneno e a opressão: “minha família é quem está na luta. Somos todos uma grande rede para garantir o direito de falar, de ir e vir, e de ser respeitada”.
A Violência

“A violência contra as mulheres virou uma epidemia no Brasil. E isso é muito grave”, afirma Roselita Vitor Albuquerque, assentada e coordenadora do Polo da Borborema, que promove a Marcha, ao encerrar a caminhada sobre o carro de som.
Roselita enfatiza que a luta não pode ser só das mulheres: “os homens precisam assumir outra postura. Não podemos viver em um país onde as mulheres não têm o direito de viver porque decidiram sair de relacionamentos abusivos. Precisamos de políticas públicas efetivas e que os agressores paguem por seus crimes”.
A ciranda

No fim de tudo, no alto dos seus 82 anos, 10 só de Marcha, a dançarina, compositora e cantora de ciranda pernambucana Lia de Itamaracá conduz uma grande ciranda de exaltação à vida, um encerramento apoteótico para mais um grande momento de demonstração da força feminina nordestina.


