De perrengues a acordos, os bastidores da apuração na COP17

A jornalista Maristela Crispim compartilha bastidores da cobertura da COP17 de Desertificação, na Mongólia, e comenta os resultados da conferência

Uma mulher está sentada na estrutura do letreiro da "UNCCD COP17 Ulaanbaatar 2026" em uma praça.
A diretora-executiva da Eco Nordeste Maristela Crispim foi uma dos 3 jornalistas brasileiros que cobriram a COP17 em Ulaanbaatar | Foto: Diana Silva

Vivenciar a viagem a Ulaanbaatar e a COP17 entre 14 e 30 de agosto foi uma experiência única como pessoa e jornalista. Já tinha participado da cobertura de duas conferências internacionais antes, a Rio + 20 com uma bolsa da Internews, em 2012, no Rio de Janeiro; e da COP30, em Belém, em 2025, com o apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS), na Casa do Jornalismo Socioambiental. Ambas as experiências de cobertura e trocas com pessoas de todo o Planeta foram incríveis.

Mas a COP17 reuniu uma série de outros fatores. Não foi apenas fora do Brasil, foi do outro lado do Planeta, noutro hemisfério, noutro meridiano, a 14 mil quilômetros de onde vivo, 11h horas na frente, um lugar seco e de clima siberiano na maioria das estações. Felizmente, quando fomos era verão.

Uma cordilheira rochosa se ergue sobre colinas e campos verdes sob um céu ensolarado.
Paisagem de Ulaanbaatar, na Mongólia | Foto: Maristela Crispim

Ladeada pelo imenso deserto de Gobi, a capital mongoliana é um lugar cheio de peculiaridades. Para começar, devido a influências históricas e políticas, utiliza tanto o alfabeto cirílico (oficial na Mongólia moderna devido à era soviética) quanto a escrita mongol tradicional (um sistema vertical originado do uigur, escrito de cima para baixo).

Por isso, e pela esmagadora maioria da população falar apenas mongol, a comunicação foi um grande desafio. Imaginei que as pessoas que trabalham em hotéis falassem inglês. Me enganei. Como eu e Diana Silva, a outra jornalista que viajou a convite do Instituto ClimaInfo, ficamos num hotel fora do circuito oficial do evento, portanto mais afastado, os funcionários do hotel não falavam inglês.

Neste caso, é preciso dedicação para encontrar um ATM em inglês para ser utilizado por um estrangeiro. Ainda, um celular com internet é essencial para traduzir cardápios e rótulos e tentar descobrir o que se está consumindo. E esta não é uma técnica 100% infalível.

Três jornalistas, duas mulheres brancas e um homem branco, sorriem em uma selfie em frente ao painel do evento da UNCCD.
Os jornalistas Diana Silva, Maristela Crispim e Rafael Carodoso na COP17 em Ulaanbaatar | Foto: Rafael Cardoso

Por falar em sinal. Meu plano é internacional (teoricamente funciona em qualquer lugar do mundo; na ida não falhou em Paris e nem em Beijing. Mas, adivinhem. Não na Mongólia. Lá tive que contratar um pacote de internet virtual ilimitado por 15 dias para me comunicar (minimamente) e também me locomover (outro desafio).

Quer mais desafios? O clima! Era fim de verão, daí passamos calor, frio, sol escaldante e banho de chuva, e que chuva! Lembram que comentei sobre a localização do hotel? Para ir do aeroporto ao hotel precisei “chorar muito” para não deixarem uma mulher na chuva às 2h da madrugada a 15 minutos a pé do hotel sozinha, e sim na porta do meu hotel.

Duas mulheres tiram uma selfie sorrindo ao lado de uma placa amarela de sinalização do ônibus da COP-17 em uma rua da cidade.
Um dos pontos de ônibus específicos para atender o público participante da COP17 | Foto: Diana Silva

Depois encaramos, durante 15 dias, uma caminhada nem sempre tão agradável devido ao clima e por ser descida na ida e subida na volta até o hotel credenciado mais próximo. Tudo para alcançar o hotel credenciado Castella e pegar o ônibus COP3, um dos 17 ônibus destinados para o público da conferência e nosso transporte básico durante 15 dias até a nossa ida de volta ao aeroporto. Na ocasião, fomos a pé com as bagagens, outro desafio que vencemos juntas.

O transporte, aliás, foi um desafio à parte. Não tem táxi nem Uber na Mongólia. Nada identificado. Até existem dois sistemas de aplicativo, mas é preciso ter um número da Mongólia para cadastrar e, ainda assim, não é fácil ou garantido.

Pegamos duas vezes. Uma delas, pedido pelo hotel e outra quando tentamos ir a um mirante nos arredores da cidade; desistimos no caminho porque estava anoitecendo e fazendo muito frio para quem estava pouco agasalhada. Demos com a mão na rua e conseguimos por 22 mil tugriks (31,70 reais, aproximadamente) chegar ao hotel.

Fora isso, teve dia que chegamos a percorrer cinco mil passos por falta de alternativa de transporte. Em um deles, chegamos 23h30 ao hotel. Em outro, a chuva nos pegou no caminho e nos molhamos muito, mesmo com sombrinha.

Uma imponente estátua prateada de Genghis Khan a cavalo se destaca em uma colina sob o céu aberto.
Complexo da Estátua Equestre de Gengis Khan, localizado em Tsonjin Boldog, a cerca de 50 quilômetros de Ulaanbaatar | Foto: Maristela Crispim

E, pelos caminhos, surpreendeu a quantidade de CU, famosa rede de lojas de conveniência da Coreia do Sul. O nome vem do inglês “See You” (Vejo você) e do slogan “Nice to CU” (Bom te ver). E de Karaokês (ou Kapaokês). Depois entendi que eles misturam o R e o P.

Outra descoberta é que, apesar da delicada e estratégica política de neutralidade e equilíbrio entre seus dois gigantescos vizinhos, a China e a Rússia, parte da população nutre uma simpatia pela Rússia e uma antipatia pela China, a ponto de chamar alguém de chinês ser uma ofensa para eles.

Estátua de uma divindade budista sentada em posição de meditação diante de um templo.

A comida é um capítulo à parte. Após 15 dias, não via a hora do nosso arroz com feijão… Muita carne de carneiro, inclusive frango sabor carneiro, fritura e pimenta. Fora as iguarias como sorvete de leite de camela e o famoso leite fermentado de égua. Fui fornecedora de extrato de boldo para alguns colegas que sentiram o impacto na saúde digestiva. Mas eu escapei dessa.

Por outro lado, nenhum desses desafios superou o maior: o jetlag! Levei cinco dias para conseguir dormir uma “noite inteira”. E enquanto escrevo estas palavras, da minha casa, preciso confessar que acordei às 4h40 e não dormi mais (ainda na adaptação do retorno).


Mas vamos falar do
motivo da viagem?

Após duas semanas de negociações intensas, a 17ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD COP17) foi encerrada, estabelecendo novos marcos para a resiliência contra a seca e a restauração de solos degradados.

O evento culminou no anúncio de uma carteira de investimentos de US$ 1,3 bilhão direcionada a 23 países em cinco continentes, colocando as pastagens do Planeta no centro da agenda de conservação global.

Leia também: O compromisso do Nordeste na transição ecológica

Do montante anunciado para a restauração de terras e resiliência contra a seca, cerca de US$ 644,5 milhões foram identificados como novos recursos, sendo que US$ 216,4 milhões já estão confirmados para aplicação imediata.

Atualmente, o Planeta enfrenta um déficit severo de financiamento na área: estima-se que sejam necessários US$ 355 bilhões anuais até 2030 para cumprir as metas de restauração global, contra apenas US$ 77 bilhões investidos hoje, do qual o setor privado representa apenas 6% do total.


Parcerias contra a seca

Entre as principais ferramentas de fomento viabilizadas durante a COP17, destacam-se:

  • Iniciativa Emblemática para Pastagens (Rangelands Flagship Initiative): reúne US$ 1,2 bilhão distribuídos em 45 projetos. Trata-se da maior mobilização de recursos direcionada especificamente a pastagens na história da Convenção.
  • Fundo de Investimento em Resiliência contra a Seca (DRIF): lançado de forma conjunta pela UNCCD e por Luxemburgo, o mecanismo visa mobilizar até US$ 400 milhões em capitais públicos e privados para impulsionar a segurança hídrica, soluções baseadas na natureza e agricultura sustentável.
  • Parceria Global de Riade para Resiliência contra a Seca: lançada originalmente na COP16, a parceria avançou em direção à sua operacionalização prática com a proposta de um fundo comum para apoiar cerca de 70 países vulneráveis de baixa e média-baixa renda com capacitação e projetos prontos para investimento.

O papel do Brasil

Durante a conferência, o Brasil apresentou sua meta voluntária para a Neutralidade da Degradação da Terra (LDN) até 2030, estruturada em 17 submetas que abrangem aproximadamente 3,67 milhões de km².

O plano nacional inclui o compromisso de recuperar ou restaurar mais de 163 mil km² por meio da regeneração de vegetação nativa e de sistemas agroflorestais, além de ações para evitar a degradação em outros 3,51 milhão de km² por meio de manejo sustentável.

Uma jornalista segura um celular enquanto entrevista um homem em um estande do evento.
Bastidores da COP17 em Ulaanbaatar | Foto: Diana Silva

Paralelamente, os países da Ásia Central anunciaram que já atingiram metade de suas metas voluntárias de LDN. Esses compromissos ocorrem em um cenário onde até 40% das terras do planeta estão degradadas, enquanto as nações do globo assumiram o compromisso de restaurar mais de 1 bilhão de hectares até 2030.

As pastagens terrestres – que cobrem 54% da superfície da Terra e sustentam cerca de 2 bilhões de pessoas – ganharam relevância após análises econômicas indicarem que geram entre US$ 21 e US$ 47 trilhões anuais em serviços ecossistêmicos (quase metade do PIB mundial).

Cada dólar investido na recuperação de pastagens gera um retorno econômico de US$ 4 a US$ 6, podendo chegar a US$ 36 se computados os benefícios públicos mais amplos, como o fornecimento de água.


Inclusão histórica
de Povos Indígenas

A COP17 também marcou um avanço democrático dentro da Convenção com a realização das primeiras reuniões oficiais do Caucus de Povos Indígenas e do Caucus de Comunidades Locais da UNCCD. O encontro reuniu a maior representação de povos tradicionais da história das conferências da UNCCD.

Suas lideranças reivindicaram maior acesso direto a financiamentos para ações locais, garantia de direitos territoriais e de mobilidade, além do reconhecimento de seus conhecimentos tradicionais no manejo sustentável do solo. Isso apesar de os Estados Unidos se contraporem a essa participação, a agenda de gênero e a integração das três COPs, Clima, Biodiversidade e Desertificação.


Rumo ao Egito

Com o encerramento dos trabalhos em Ulaanbaatar, a presidência mongol reforçou a diretriz de transição “das promessas para a implementação rápida”. A próxima conferência ordinária, a COP18, está programada para ocorrer no Egito em 2028, onde a gestão proativa da seca foi estabelecida como um item permanente e independente das próximas agendas de negociação.

* A jornalista Maristela Crispim viajou a Ulaanbaatar com o apoio do Instituto ClimaInfo e da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA)

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