‘Fortaleza é a 11ª mais rica, mas ainda falha no básico’

A arquiteta e urbanista Liana Feingold aponta o caminho para uma Fortaleza que não seja apenas rica, mas uma cidade de morada digna e justa

Esta vista aérea captura a vibrante orla de Fortaleza, destacando o contraste entre a natureza e a urbanização densa da capital cearense. Em primeiro plano, as águas de um tom verde-esmeralda intenso quebram em espumas brancas sobre uma larga faixa de areia dourada, onde se alinham coqueiros e um calçadão moderno. Logo atrás da Avenida Beira-Mar, ergue-se um paredão de edifícios residenciais e comerciais de diferentes estilos arquitetônicos e alturas, que se estendem até o horizonte sob um céu levemente nublado. A imagem transmite a energia de uma metrópole litorânea tropical, equilibrando a serenidade do oceano com o dinamismo do cenário urbano.
Fortaleza é a maior capital do Nordeste e a quarta do Brasil. Apesar de ser uma das cidades mais ricas do País, ela é marcada pela desigualdade | Foto: Jade Queiroz – MTUR

Para celebrar os 300 anos de Fortaleza, é preciso olhar para além do cartão-postal e encarar as fissuras de uma metrópole que cresceu rápido demais. Quem nos guia nessa análise é Liana Feingold, arquiteta e urbanista que trocou a prancheta convencional pela escuta ativa em territórios vulnerabilizados, um dos objetivos da Estar Urbano, da qual é cofundadora.

“O Estar Urbano aplica os conceitos da acupuntura urbana e do urbanismo social para garantir que, por meio de processos participativos, seja possível contemplar essa diversidade, desde o projeto da moradia, da rua, do bairro e da cidade, cuidando do indivíduo e do coletivo. Acreditamos na arquitetura e no urbanismo como ferramentas potentes de transformação social”, explica Liana.

Especialista em Neuroarquitetura e Urbanismo Social, Liana é uma das mentes por trás de marcos como a primeira rua compartilhada da capital cearense. Nesta entrevista, ela disseca um pouco da “alma” da Cidade, da elegância de ferro da Belle Époque ao concreto que desafia o mar, e aponta o caminho para uma Fortaleza que não seja apenas a 11ª mais rica do País, mas uma cidade onde a dignidade de morar seja o alicerce para o futuro.

Esta foto colorida de estúdio captura uma mulher de meia-idade com pele morena clara, em pé contra um fundo cinza claro. Ela tem olhos castanhos expressivos e o rosto emoldurado por cabelos castanhos claros cacheados e volumosos, que caem logo acima dos ombros. Ela sorri calorosamente, olhando diretamente para a câmera, os dentes à mostra. Ela veste uma blusa off white de manga curta com gola careca, com uma textura sutil e listrada. Seus braços estão posicionados ao lado do corpo, um deles visível e ligeiramente dobrado, e ela usa um pequeno brinco redondo. Ela está posicionada no centro do enquadramento, preenchendo a maior parte da imagem
Liana destaca o crescimento acelerado da Cidade para atender a explosão demográfica | Foto: Igor de Melo

Maristela Crispim – O que você destaca sobre o crescimento urbanístico de Fortaleza nesses 300 anos?

Liana Feingold – Fortaleza protagoniza um crescimento acelerado nesses 300 anos, pautando necessidades para atender uma população que sai de aproximadamente 41.000 para 4 milhões de habitantes.

São demandas recorrentes de uma cidade que se expande em novos bairros, que verticaliza ao máximo seus bairros nobres, ainda que com saneamento precário, insuficiente ou inexistente. Novas infraestruturas se dão com novas e reestruturadas avenidas, novos parques, o avanço do metrô.

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Esse olhar voltado para mobilidade, no entanto, continua sendo insuficiente, desproporcional, uma vez que o crescimento urbanístico não consegue atender as populações mais vulnerabilizadas da cidade. Então continuamos com problemas de saneamento, de coleta e tratamento de resíduos.

Moradias extremamente insalubres seguem crescendo, colocando em risco a vida da população diariamente. são desafios de uma grande cidade, essa mesma que atualmente se classifica como 11ª cidade mais rica do Brasil.

MC – O que diferencia a Fortaleza colonial, da Fortaleza da Belle Époque, para a Fortaleza de hoje?

Esta fotografia colorida mostra duas mulheres posando sorridentes em um estúdio com fundo branco infinito. A da esquerda está de pé, com cabelos longos, escuros e ondulados; ela veste um vestido preto justo, brincos circulares grandes e vermelhos, e um colar de fios múltiplos em tom alaranjado, mantendo a mão direita apoiada no ombro da outra. Sentada à direita, a outra mulher exibe cabelos castanhos claros, curtos e cacheados; ela usa uma blusa texturizada off white sob um blazer leve de tom creme, acompanhados por um colar de contas de madeira em três camadas e um anel de destaque em formato de flor
As arquitetas Laura Rios e Liana Feingold são as fundadoras da Estar Urbano | Foto: Igor de Melo

LF – A Fortaleza colonial era basicamente uma vila, com foco na defesa do litoral e no comércio de produtos como algodão e açúcar. Era uma escala muito pequena, com uma população limitada e uma economia local.

O crescimento econômico da vila de Fortaleza trouxe consigo uma abertura para o mundo, e com isso, influências europeias começaram a moldar a cidade. A arquitetura do ferro é um exemplo disso, como Teatro José de Alencar, um ícone dessa época.

E não só a arquitetura, mas também os costumes, a cultura e até mesmo a economia local foram influenciados por essas conexões internacionais. A Belle Époque foi um período de grande transformação, e Fortaleza absorveu essas influências de uma maneira única.

A Fortaleza eclética de hoje é resultado dessa mistura de influências. A cidade luta para preservar sua cultura e identidade, mesmo com o crescimento e a modernização. E é importante mesmo preservar a cultura, porque é isso que dá alma à cidade.

MC – Para você, quais são as principais virtudes e defeitos da Cidade atual?

LF – A criatividade e a hospitalidade são virtudes que encantam. Nosso jeito de falar cantando, de “esculhambar” com graça, de “se lascar” de bom. Os defeitos são inúmeros, do tamanho das desigualdades brasileiras.

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MC – Pela sua experiência, onde e como o concreto se relaciona com o ambiente natural em Fortaleza?

LF – Eu poderia citar uma imagem poética desse concreto “beijando o mar” , por meio das pontes da nossa orla, como uma forma de descrever esse encontro da cidade e do litoral, mas que também requer um olhar nosso de respeito e equilíbrio.

As pontes foram necessárias em algum momento e lá estão sendo restauradas para contar a memória da nossa cidade. É um equilíbrio delicado, onde o progresso e a necessidade de construções convivem com a preocupação de preservar o litoral e a natureza.

O uso de tecnologias sustentáveis e a busca por minimizar a interferência no ambiente são passos importantes para garantir que a cidade continue a crescer sem comprometer sua beleza natural.

É difícil ter saúde sem ter onde morar. É difícil estudar sem ter onde morar. É difícil trabalhar sem ter onde morar

Liana Feingold

MC – Se você tivesse o poder de fazer diferente, o que faria pela Cidade neste momento?

LF – Facilitaria o acesso à moradia digna, priorizando mulheres chefes de família em situação de vulnerabilidade social. Se eu pudesse escolher o local, seria um projeto de retrofit no centro da cidade de Fortaleza.

MC – Qual é a visão de futuro que você projeta para a Cidade se as coisas permanecerem como estão?

Nesta fotografia de estúdio em plano médio, uma mulher aparece sorridente contra um fundo cinza claro e neutro. De pele clara e rosto oval, ela possui cabelos castanhos claros, volumosos e bem cacheados, que emolduram seu rosto até a altura dos ombros. Ela veste um blazer de linho na cor creme com as mangas dobradas, sobreposto a uma blusa off-white de gola alta levemente texturizada. Destacam-se seus acessórios: um colar de três camadas feito de contas quadradas de madeira em tom caramelo e um cinto com uma fivela artesanal circular
Para Liana, Fortaleza vive o dilema de um equilíbrio delicado, onde o progresso e a necessidade de construções convivem com a preocupação de preservar a natureza | Foto: Igor de Melo

LF – É difícil ter saúde sem ter onde morar. É difícil estudar sem ter onde morar. É difícil trabalhar sem ter onde morar. Nossa política habitacional precisa ser revista urgentemente.

As premissas atuais têm nos levado a questões seríssimas e caríssimas para serem resolvidas. Precisamos ser mais estratégicos e eficientes para escalar modelos que priorizem o acesso a moradias dignas, inteligentes, eficientes e sustentáveis.

Sem o olhar sistêmico sobre habitar a cidade de forma equilibrada estaremos fadados às doenças do corpo e da mente.

MC – E o que você imagina que Fortaleza poderia ser, caso transformasse sua forma de ocupação da e com a Cidade?

LF – Seria diversa e justa. Os territórios são diversos, assim como seus moradores. Uma cidade que escuta sua população e cria estratégias a partir dos pontos de convergência e que educa para que as pessoas consigam fazer melhores escolhas.

Uma população consciente e engajada faz toda a diferença. Com mais informação e entendimento sobre os processos, as pessoas podem contribuir de forma mais efetiva e cobrar resultados. É um ciclo virtuoso: mais consciência leva a melhores escolhas, que por sua vez geram mais desenvolvimento e qualidade de vida.

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