Arte e território são chave para a Economia Circular no Ceará

Abertura do 3º Fórum Nordeste de Economia Circular localiza a arte e a territorialidade como cruciais para discutir economia circular e solidária. Evento vai dia 27 de março, em Fortaleza

A imagem captura o palco de um auditório durante um evento institucional. Ao centro, um homem de camisa clara fala ao microfone, ladeado por uma mulher à esquerda, que consulta papéis em um pedestal, e um intérprete de Libras à direita. Ao fundo, uma grande tela exibe a frase em português "SE NÃO AGORA, QUANDO?" em letras garrafais brancas sobre um fundo em tons de roxo e lilás. O cenário é composto por cinco poltronas de madeira dispostas em semicírculo e totens coloridos com ilustrações e textos nas laterais do palco. A iluminação é focada nos participantes, contrastando com a penumbra da plateia, sugerindo um ambiente de debate ou conferência formal.
Lema do 3º FNEC, realizado em Fortaleza (CE), é: “Se não agora, quando? Se não nós, quem? Se não aqui, onde?” | Foto: Elena Hilário

Em pleno feriado de Data Magna do Ceará, 25 de março, quando em 1884 o estado nordestino tornou-se a primeira província brasileira a abolir a escravidão, realiza-se a abertura do 3º Fórum Nordeste de Economia Circular (FNEC). O evento, que vai até 27 de março, em Fortaleza (CE), reúne autoridades nacionais e internacionais e a sociedade civil para debater estratégias de promoção e implementação da Economia Circular no Brasil. 

“Estar aqui hoje, neste dia, neste território, não é por acaso”, reflete Liu Berman, idealizadora do FNEC e do Movimento Reinventando Futuros, na sua fala de abertura. A Economia Circular, lembra, exige o combate à desigualdade e a inclusão de povos na cadeia produtiva. 

Esta é uma fotografia em plano médio e perfil de uma mulher de pele clara e cabelos loiros ondulados, falando ao microfone em um evento. Ela usa óculos de grau com armação clara e uma blusa em tom de terracota com detalhes em renda nas mangas. Com a mão direita, que possui uma tatuagem de estilo mandala no pulso, ela segura o microfone próximo à boca, enquanto a mão esquerda segura papéis sobre um púlpito de acrílico transparente. Ao fundo, uma projeção desfocada mostra letras grandes em tons de azul e vermelho, mantendo a identidade visual do evento anterior. A iluminação é quente e direcionada, destacando seu rosto e a expressão de quem realiza uma leitura ou discurso atento.
Liu Berman é idealizadora do FNEC e do Movimento Reinventando Futuros | Foto: Elena Hilário

As economias que sustentam a vida são as que precisam ser o centro, não a margem. A economia da catadora, do povo da Caatinga, a economia criativa e a economia solidária, que nunca precisaram de tutorial pra saber que, sozinhos, nós não vamos longe”, defende. 

Nesse sentido, a arte virou protagonista ao estar nos blocos de discussões, mas especialmente ao dar sentido às falas dos participantes, ao destacar o valor do território e da cultura para contextualizar as demandas da Economia Circular.

Manifestações artísticas
permeiam abertura do 3º FNEC

A Camerata de Cordas da Universidade Federal do Ceará (UFC) abre o evento com clássicos como “Mourão”, de César Guerra-Peixe, “Ave Maria Sertaneja” e “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga, e “Mucuripe”, de Belchior e Fagner. Em seguida, o artista plástico Edismar Arruda, cearense de Jaguaribara, fala sobre sua trajetória na arte a partir do ferro velho. 

Esta fotografia, tirada de uma perspectiva levemente abaixo do nível do palco, mostra uma orquestra de cordas se apresentando no 3º Fórum Nordeste de Economia Circular, em Fortaleza. No centro do palco, um maestro de costas rege o grupo com os braços abertos. Os músicos, homens e mulheres vestidos predominantemente de preto, estão sentados em semicírculo tocando violinos e violoncelos. Ao fundo, uma grande tela branca exibe a logomarca do evento em tons de azul, composta pelo título e pelo desenho do mapa do Nordeste estilizado com linhas que remetem ao símbolo do infinito. O primeiro plano é emoldurado pelas silhuetas escuras das escadas e de algumas pessoas da plateia, criando uma sensação de profundidade que direciona o olhar para a iluminação clara e suave do palco.
Camerata de Cordas da UFC tocou arranjos de composições nordestinas e brasileiras durante abertura do 3º FNEC | Foto: Elena Hilário

É dele a missão de preparar as obras de arte entregues às homenageadas do território: um caju para Francinete Cabral Lima, conhecida como Dona Nete, criadora da Sociedade Comunitária de Reciclagem de Resíduos Sólidos do Pirambu (Socrelp); a figura de uma mãe e uma filha para Maria Cristina de Sousa Paula, primeira mulher marisqueira a presidir a Colônia de Pescadores Z8, após 104 anos de sua fundação; e um pássaro em um ninho para Cacica Pequena, a primeira mulher a assumir o posto de cacique no Brasil, em 1995, à frente do povo Jenipapo-Kanindé em Aquiraz (CE). 

Cacica Pequena, aniversariante do dia, recebe a escultura com uma canção autoral do disco “Beleza da Vida”, lançado em 2016: “A natureza divina é a beleza da vida, a natureza e a terra, é a beleza da vida.” 

Depois, ao recepcionar o público, o anfitrião Domingos Filho, secretário de Desenvolvimento Econômico do Ceará, recita com firmeza e convicção o poeta caririense Patativa do Assaré: 

Eu sou de uma terra que o povo padece
Mas não esmorece e procura vencer.
Da terra querida, que a linda cabocla
De riso na boca zomba no sofrer
Não nego meu sangue, não nego meu nome
Olho para a fome, pergunto o que há?
Eu sou brasileiro, filho do Nordeste,
Sou cabra da Peste, sou do Ceará.

Economias Circular e Criativa querem igualdade e sustentabilidade

“Eu acho que é muito importante a gente perceber que todas essas economias do século XXI – a economia verde, azul, solidária, a economia circular e a criativa -, são todas economias contra-hegemônicas”, reforça Cláudia Leitão, secretária de Economia Criativa do Ministério da Cultura, em mesa mediada pela diretora executiva do Instituto Eco Nordeste, Maristela Crispim.

“Isso quer dizer que todas elas, de uma certa forma, querem encontrar alternativas para uma visão de economia-mundo, que é sempre uma visão de uma economia desigual e insustentável”, segue.

Esta fotografia em close-up apresenta pequenas esculturas feitas de metal reciclado, dispostas sobre uma superfície circular de madeira. À esquerda, destaca-se a representação de um caju pendendo de um galho com uma folha, fabricado com peças soldadas e polidas. Ao centro, há um cacto mandacaru feito de vergalhão texturizado. À direita, duas figuras humanas — uma maior e uma criança — são representadas com corpos de tela metálica e cabeças de parafusos, evocando a imagem de retirantes ou figuras regionais. O fundo está desfocado em tons quentes e escuros, revelando silhuetas de músicos e instrumentos, o que sugere que as peças fazem parte da decoração ou premiação do evento ocorrido no palco.
Esculturas do artista plástico Edismar Arruda, de Jaguaribara (CE), entregues às homenageadas | Foto: Elena Hilário

A economia criativa, reforça a secretária, é um ótimo ponto de partida para promover o desenvolvimento de regiões. “A secretária (de Cultura do Ceará) Luiza Cela provoca a pensar em uma nova Lei de Incentivo à Cultura, a Lei Rouanet para o Desenvolvimento de Territórios. E o Ceará sai na frente mais uma vez: junto com o secretário Henilton Menezes, criamos a Rouanet Territórios Criativos e o primeiro projeto que foi apoiado foi do Ceará, no Cariri, apoiado pelo Banco do Nordeste”, conta.

E , por falar em Cariri, “não é possível falar do Cariri se eu não falar do desmatamento da Chapada do Araripe. Não é possível falar de território criativo se eu não falar na sobrevivência dos mestres da cultura”, defende Claudia Leitão. “Todos nós somos responsáveis pela Economia Circular porque ela é fundamental para uma economia criativa, sustentável, includente, que envolva cidadania, democracia, bem-estar e bem-viver. É para isso que o território criativo do Cariri está se desenvolvendo”, conclui.

BNB desenha primeiro programa brasileiro bancário de Economia Criativa

Durante a mesa, a secretária Cláudia Leitão também divulga que o Banco do Nordeste está desenhando “o primeiro programa brasileiro bancário de economia criativa”. “Não há programas de Economia Criativa nos bancos brasileiros. Haverá no Banco do Nordeste”, comemora a representante.

Dentre as mais famosas manifestações culturais do Cariri, destaca-se a arte em couro do mestre Espedito Seleiro, exposta no Museu do Ciclo do Couro, em Nova Olinda | Foto: Alice Sales

Segundo ela, a pasta também está se reunindo com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e os bancos do Brasil e Caixa Econômica para obter “fontes de financiamento e investimento para negócios criativos sustentáveis”. 

“Isso é importante para a gente pensar o lugar da Economia Circular dentro de uma economia que está voltada à identidade do produto. Nós estamos falando de identidade, de sentimento de pertença, de valor cultural, simbólico da narrativa”, destaca a secretária. “Se a gente esvaziar a cultura do produto brasileiro, não haverá o Brasil criativo que a gente deseja. Soberania significa soberania cultural.”

III Fórum Nordeste de Economia Circular

Quando: de 25 a 27 de março
(atividades do dia 26 de março, pela manhã, são reservadas a convidados)
Onde:
Hub Cultural Porto Dragão: Rua Boris, 90 C – Centro
KUYA – Centro de Design do Ceará: Rua Sen. Jaguaribe, 323 – Moura Brasil
Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura: Rua Dragão do Mar, 81 – Praia de Iracema
Credenciamento: a partir das 8h30
Programação: das 9h às 18h
Programação: Disponível no site do evento
Evento gratuito mediante inscrição prévia

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