Abertura do 3º Fórum Nordeste de Economia Circular localiza a arte e a territorialidade como cruciais para discutir economia circular e solidária. Evento vai dia 27 de março, em Fortaleza

Em pleno feriado de Data Magna do Ceará, 25 de março, quando em 1884 o estado nordestino tornou-se a primeira província brasileira a abolir a escravidão, realiza-se a abertura do 3º Fórum Nordeste de Economia Circular (FNEC). O evento, que vai até 27 de março, em Fortaleza (CE), reúne autoridades nacionais e internacionais e a sociedade civil para debater estratégias de promoção e implementação da Economia Circular no Brasil.
“Estar aqui hoje, neste dia, neste território, não é por acaso”, reflete Liu Berman, idealizadora do FNEC e do Movimento Reinventando Futuros, na sua fala de abertura. A Economia Circular, lembra, exige o combate à desigualdade e a inclusão de povos na cadeia produtiva.

“As economias que sustentam a vida são as que precisam ser o centro, não a margem. A economia da catadora, do povo da Caatinga, a economia criativa e a economia solidária, que nunca precisaram de tutorial pra saber que, sozinhos, nós não vamos longe”, defende.
Nesse sentido, a arte virou protagonista ao estar nos blocos de discussões, mas especialmente ao dar sentido às falas dos participantes, ao destacar o valor do território e da cultura para contextualizar as demandas da Economia Circular.
Manifestações artísticas
permeiam abertura do 3º FNEC
A Camerata de Cordas da Universidade Federal do Ceará (UFC) abre o evento com clássicos como “Mourão”, de César Guerra-Peixe, “Ave Maria Sertaneja” e “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga, e “Mucuripe”, de Belchior e Fagner. Em seguida, o artista plástico Edismar Arruda, cearense de Jaguaribara, fala sobre sua trajetória na arte a partir do ferro velho.

É dele a missão de preparar as obras de arte entregues às homenageadas do território: um caju para Francinete Cabral Lima, conhecida como Dona Nete, criadora da Sociedade Comunitária de Reciclagem de Resíduos Sólidos do Pirambu (Socrelp); a figura de uma mãe e uma filha para Maria Cristina de Sousa Paula, primeira mulher marisqueira a presidir a Colônia de Pescadores Z8, após 104 anos de sua fundação; e um pássaro em um ninho para Cacica Pequena, a primeira mulher a assumir o posto de cacique no Brasil, em 1995, à frente do povo Jenipapo-Kanindé em Aquiraz (CE).
Cacica Pequena, aniversariante do dia, recebe a escultura com uma canção autoral do disco “Beleza da Vida”, lançado em 2016: “A natureza divina é a beleza da vida, a natureza e a terra, é a beleza da vida.”
Depois, ao recepcionar o público, o anfitrião Domingos Filho, secretário de Desenvolvimento Econômico do Ceará, recita com firmeza e convicção o poeta caririense Patativa do Assaré:
Eu sou de uma terra que o povo padece
Mas não esmorece e procura vencer.
Da terra querida, que a linda cabocla
De riso na boca zomba no sofrer
Não nego meu sangue, não nego meu nome
Olho para a fome, pergunto o que há?
Eu sou brasileiro, filho do Nordeste,
Sou cabra da Peste, sou do Ceará.
Economias Circular e Criativa querem igualdade e sustentabilidade
“Eu acho que é muito importante a gente perceber que todas essas economias do século XXI – a economia verde, azul, solidária, a economia circular e a criativa -, são todas economias contra-hegemônicas”, reforça Cláudia Leitão, secretária de Economia Criativa do Ministério da Cultura, em mesa mediada pela diretora executiva do Instituto Eco Nordeste, Maristela Crispim.
“Isso quer dizer que todas elas, de uma certa forma, querem encontrar alternativas para uma visão de economia-mundo, que é sempre uma visão de uma economia desigual e insustentável”, segue.

A economia criativa, reforça a secretária, é um ótimo ponto de partida para promover o desenvolvimento de regiões. “A secretária (de Cultura do Ceará) Luiza Cela provoca a pensar em uma nova Lei de Incentivo à Cultura, a Lei Rouanet para o Desenvolvimento de Territórios. E o Ceará sai na frente mais uma vez: junto com o secretário Henilton Menezes, criamos a Rouanet Territórios Criativos e o primeiro projeto que foi apoiado foi do Ceará, no Cariri, apoiado pelo Banco do Nordeste”, conta.
E , por falar em Cariri, “não é possível falar do Cariri se eu não falar do desmatamento da Chapada do Araripe. Não é possível falar de território criativo se eu não falar na sobrevivência dos mestres da cultura”, defende Claudia Leitão. “Todos nós somos responsáveis pela Economia Circular porque ela é fundamental para uma economia criativa, sustentável, includente, que envolva cidadania, democracia, bem-estar e bem-viver. É para isso que o território criativo do Cariri está se desenvolvendo”, conclui.
BNB desenha primeiro programa brasileiro bancário de Economia Criativa
Durante a mesa, a secretária Cláudia Leitão também divulga que o Banco do Nordeste está desenhando “o primeiro programa brasileiro bancário de economia criativa”. “Não há programas de Economia Criativa nos bancos brasileiros. Haverá no Banco do Nordeste”, comemora a representante.

Segundo ela, a pasta também está se reunindo com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e os bancos do Brasil e Caixa Econômica para obter “fontes de financiamento e investimento para negócios criativos sustentáveis”.
“Isso é importante para a gente pensar o lugar da Economia Circular dentro de uma economia que está voltada à identidade do produto. Nós estamos falando de identidade, de sentimento de pertença, de valor cultural, simbólico da narrativa”, destaca a secretária. “Se a gente esvaziar a cultura do produto brasileiro, não haverá o Brasil criativo que a gente deseja. Soberania significa soberania cultural.”
III Fórum Nordeste de Economia Circular
Quando: de 25 a 27 de março
(atividades do dia 26 de março, pela manhã, são reservadas a convidados)
Onde:
Hub Cultural Porto Dragão: Rua Boris, 90 C – Centro
KUYA – Centro de Design do Ceará: Rua Sen. Jaguaribe, 323 – Moura Brasil
Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura: Rua Dragão do Mar, 81 – Praia de Iracema
Credenciamento: a partir das 8h30
Programação: das 9h às 18h
Programação: Disponível no site do evento
Evento gratuito mediante inscrição prévia


