‘Tudo deve ser repensado com o objetivo de sustentar a vida’

Vivemos tempos em que muitas pessoas e organizações adotam Sustentabilidade por obrigação, moda, marketing ou os três combinados em diferentes arranjos. Mas você já parou para pensar sobre o que é (ou deveria ser) realmente ser Sustentabilidade? A palestrante, autora da Sustentabilidade 4.0 e doutora em Desenvolvimento e Meio Ambiente, Magda Maya, já. E mais de uma vez. E, cada vez que retoma suas análises, nos traz reflexões realmente relevantes sobre o mundo em que vivemos e qual é (ou deveria ser) o nosso papel num planeta que ruma para a ruína das nossas condições de vida. Nesta entrevista especial exclusiva ela nos fala sobre tudo isso e muito mais. Confiram!

Uma mulher branca de pele clara e cabelos loiros ondulados sorri para a câmera enquanto posa sentada de forma descontraída em uma poltrona bege de base giratória metálica. Ela veste um blazer preto e calças jeans de corte "flare" com aberturas laterais nas barras, estando com os pés descalços apoiados no braço direito da poltrona. Com as mãos, ela segura um livro aberto, intitulado "Sustentabilidade 4.0", como se estivesse lendo no momento da foto. O fundo é de um cinza escuro uniforme e neutro
‘Sustentabilidade é uma propriedade da vida, ou seja, é a capacidade que os sistemas vivos têm de se manter, se adaptar, se regenerar e evoluir ao longo do tempo sem destruir as condições que os sustentam’, define Magda | Foto: Guilherme Forte

Maristela Crispim – Para você o que deveria ser realmente Sustentabilidade?

Magda Maya – Para mim, sustentabilidade é uma propriedade da vida, ou seja, é a capacidade que os sistemas vivos têm de se manter, se adaptar, se regenerar e evoluir ao longo do tempo sem destruir as condições que os sustentam. Quando a gente entende isso, tudo muda porque deixa de ser algo que “fazemos” e passa a ser algo que somos ou não somos.

Esse entendimento é bem diferente de quem opera sustentabilidade como uma prática isolada, uma sigla ou um selo. O problema é que, em algum momento, nós deslocamos o conceito do campo da vida para o campo da gestão e passamos a tratar sustentabilidade como algo que se aplica ao sistema econômico, e não como algo que emerge do funcionamento dos sistemas vivos. Quando isso acontece, nem toda sustentabilidade sustenta de fato. Algumas apenas mantêm o modelo funcionando, mesmo que ele continue corroendo as bases que sustentam a vida.

MC – Então o que temos visto rotulado como Sustentabilidade não é bem o que deveria ser?

MM – Não mesmo! O que temos visto é uma multiplicação de ações, metas, relatórios e compromissos que operam a partir de uma lógica de ajuste, não de transformação e isso não acontece (apenas) por má-fé generalizada, mas porque o conceito foi normalizado dentro de uma mentalidade que tenta corrigir efeitos sem questionar causas.

Seguimos aprofundando crises ecológicas, sociais e humanas não porque não fazemos nada, mas porque fazemos muito a partir de um ponto de partida equivocado. Sustentabilidade pensada a partir da lógica do próprio sistema que gera a insustentabilidade tende a produzir resultados fracos.

A Sustentabilidade virou ferramenta de ajuste, de comunicação e, muitas vezes, de alívio de consciência por meio de discursos bonitos, relatórios sofisticados, mas ainda numa lógica extrativista e superficial. E enquanto a Sustentabilidade não tocar na base do pensamento (econômico, antropocêntrico e fragmentado) ela vai continuar sendo mais narrativa do que transformação.

MC – É possível dizer, então, que há níveis de Sustentabilidade? Pode enumerar e caracterizar?

MM – Sim, é possível, e eu diria que essa distinção é essencial para entender por que falamos tanto de Sustentabilidade e, ainda assim, seguimos aprofundando as crises. Não se trata de criar uma hierarquia moral, mas de reconhecer que existem diferentes visões de mundo operando sob o mesmo nome, com níveis muito distintos de eficiência sistêmica.

A Sustentabilidade fraca é aquela que nasce no diálogo direto com a Economia Ambiental neoclássica e com o mercado financeiro. Ela parte da premissa de que o capital natural pode ser substituído por capital econômico ou tecnológico, desde que o sistema continue funcionando. É uma sustentabilidade voltada à manutenção do modelo e não à sustentação da vida.

A Sustentabilidade média representa um avanço importante, porque reconhece que existem limites ecológicos reais e que certos ecossistemas, espécies e funções não são plenamente substituíveis. Ela aparece com força nas políticas públicas, nas legislações ambientais e também em agendas globais como os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável). Seu mérito está em ampliar a consciência e o escopo do debate, porém sua limitação é estrutural, pois, diante de conflitos reais, as decisões finais continuam majoritariamente orientadas por interesses econômicos e geopolíticos.

Já a Sustentabilidade forte emerge de demandas sociais, de povos e comunidades que vivenciam diretamente os limites do modelo extrativista e reconhece que a Sustentabilidade não é uma meta a ser alcançada, mas uma propriedade intrínseca da vida. Aqui, o eixo deixa de ser Antropocêntrico e passa a ser Ecocêntrico. A vida, e não a economia, torna-se o valor central, e certos limites deixam de ser negociáveis.

É dentro desse campo da Sustentabilidade forte que se insere a Sustentabilidade 4.0, não como ruptura, nem como conceito paralelo, mas como um desdobramento necessário, justamente porque a Sustentabilidade forte, apesar de conceitualmente consistente, sempre enfrentou um grande desafio: a operacionalização no mundo real. A Sustentabilidade 4.0 avança ao propor uma costura metodológica aplicável, integrando pensamento complexo, princípios de eficiência da vida, inovação baseada na natureza, responsabilização institucional e transformação cultural.

Esta fotografia em plano médio e fechado mostra uma mulher de pele clara, com o olhar voltado para baixo e um leve sorriso sereno nos lábios, transmitindo uma expressão de introspecção. Ela possui cabelos longos e ondulados em tons de castanho com luzes loiras, que caem sobre seus ombros. A mulher veste um blazer branco elegante com ombreiras discretas e utiliza um colar estilo choker dourado e delicado. A maquiagem é suave, destacando-se o batom de tom terroso. O fundo da imagem é cinza escuro e uniforme
‘A Sustentabilidade fraca está voltada à manutenção do modelo e não à sustentação da vida’, afirma a pesquisadora | Foto: Guilherme Forte

MC – Para você onde se situa a sigla ESG (Environmental, Social and Governance) nesta classificação de Sustentabilidades?

MM – O ESG se insere entre o campo da sustentabilidade fraca e a média. Embora poucos saibam, o ESG nasceu como instrumento do mercado financeiro para avaliação de risco e proteção de ativos para grandes corporações de capital aberto, e não foi à toa que vimos grandes corporações desistindo de suas metas ESG em todo o mundo quando Donald Trump voltou ao poder, ou seja, a Sustentabilidade perdeu valor de mercado.

Contudo, no contexto Brasil o ESG passou a ser tratado como sinônimo de sustentabilidade, o que pode ser comprovado com sua entrada no escopo de pequenas e médias empresas, com pouquíssima interface com o mercado financeiro, ou seja, em termos puristas e na origem do termo não é ESG.

Mas o lado positivo e que eleva um pouco para uma Sustentabilidade média, é a mobilização das empresas brasileiras no sentido de “fazer alguma coisa” e especialmente as empresas que realmente entendem o conceito e colocam a Sustentabilidade no core do negócio (e não apenas num selo) estão fazendo um belo trabalho.

MC – Você acha que dá para salvar ações que estão no meio do caminho? Por outro lado, há ações que não têm salvação (tipo, melhor abandonar tudo e começar novamente de outro jeito)?

MM – A maioria das ações que estão no meio do caminho não precisa ser descartada, mas reposicionada. O grande erro está em apostar em ações isoladas sem considerar cenário e contexto. Quando uma iniciativa se ancora apenas na Sustentabilidade fraca ou média (interesses apenas financeiros ou regulatórios), ela até pode gerar ganhos pontuais, mas dificilmente sustenta a vida no longo prazo – o que é o verdadeiro sentido da Sustentabilidade.

Agora, existem práticas que, pela sua própria natureza, são incompatíveis com qualquer ideia de sustentabilidade fraca, média ou forte, a exemplo da continuidade da exploração de combustíveis fósseis. Nesses casos, insistir é prolongar a insustentabilidade, ampliar o risco e naturalizar uma grande contradição. Sustentabilidade também é reconhecer quando algo não se sustenta mais e é para isso que a tecnologia deveria servir, buscar alternativas sustentáveis.

MC – Durante a COP30, realizada em Belém no último mês de novembro, testemunhamos uma explosão de Greenwashing (lavagem verde). Em que ponto ações de Sustentabilidade descambam para esse lado?

MM – Espaços como as COPs tornam visível essa tensão entre Sustentabilidade fraca, média e forte. Nesses ambientes, as empresas tendem a operar na lógica fraca, muitas vezes revestida de discursos sofisticados e estruturas grandiosas que seduzem os desavisados.

Governos atuam majoritariamente no campo da Sustentabilidade média, tentando mediar interesses econômicos e geopolíticos, enquanto povos tradicionais, comunidades e movimentos sociais reivindicam uma Sustentabilidade forte, com limites claros e justiça socioambiental.

O greenwashing acontece quando há um descompasso entre discurso e transformação real (intencional ou por pura ignorância de quem pratica), especialmente quando se simplifica a complexidade. Falar muito de Sustentabilidade sem tocar na lógica do modelo é uma forma elegante de manter tudo como está, na superficialidade.

MC – Você é otimista em relação à ruptura com essas visões engessadas que não mudam o que precisa mudar realmente?

Esta fotografia em plano médio mostra uma mulher de pele clara com um sorriso radiante, olhando para cima e para a sua direita. Ela tem cabelos ondulados de cor castanho-clara com luzes loiras que emolduram seu rosto. A mulher veste uma jaqueta preta aberta sobre uma blusa escura e está adornada com diversos acessórios dourados: um colar fino com um pequeno pingente quadrado, uma corrente mais longa com detalhes em formato de seta, pulseiras delicadas e um anel com uma pedra avermelhada. Sua mão esquerda está levemente erguida na altura do ombro, com os dedos relaxados. O fundo é um cinza escuro sólido e neutro
‘Eu sou otimista na maior parte do tempo e no sentido mais maduro da palavra: admitindo que o modelo atual está esgotado, e que isso abre uma janela histórica rara para uma mudança’, sentencia Magda | Foto: Guilherme Forte

MM – Eu sou otimista na maior parte do tempo e no sentido mais maduro da palavra: admitindo que o modelo atual está esgotado, e que isso abre uma janela histórica rara para uma mudança.

A Sustentabilidade tem nos ensinado de onde precisamos partir, mas ainda temos dificuldade de transformar essa consciência em ação e é exatamente nesse intervalo que proponho a Sustentabilidade 4.0. Não como ruptura com a Sustentabilidade forte, mas como continuidade prática.

Chamo de 4.0 tanto por ser o 4º nível de força na escala de Sustentabilidade, quanto pela relação com as revoluções industriais, cujos movimentos recentes nos levam para uma substituição da inteligência humana natural pela artificial.

Nesse contexto, meu otimismo é completamente dependente de uma integração entre Inteligência Artificial Generativa com a Inteligência Ancestral Regenerativa, ou seja, incorporar os princípios de eficiência da natureza para que tudo seja recriado e repensado com o objetivo de sustentar a vida (incluindo a nossa) e não com o objetivo de perpetuar um modelo civilizatório e um sistema econômico baseado em desigualdade e destruição.

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