Como o Sol pode transformar a vida no Semiárido brasileiro

O Programa 1 Milhão de Tetos Solares defende a geração democrática de energia, em contraste aos grandes empreendimentos eólicos e solares

Uma mulher e um homem, de pele parda, estão de pé lado a lado em um ambiente interno com paredes de azulejos brancos, posicionados à frente de um freezer horizontal de tampa de vidro. Ambos olham para a câmera e seguram, com as duas mãos, pacotes transparentes contendo polpas de frutas. A mulher, à esquerda, veste uma blusa verde-clara com estampa de bolinhas brancas e segura um pacote de cor rosa intensa escrito "goiaba" e outro branco escrito "coco". O homem, à direita, usa uma camisa polo azul, calça cinza e um boné marrom; ele segura um pacote de cor creme escrito "graviola" e um alaranjado escrito "maracujá". As identificações dos sabores foram feitas à mão com caneta hidrográfica roxa diretamente sobre o plástico dos pacotes
Nina e Givaldo destacam o quanto a energia solar tem impulsionado o negócio de polpa de frutas da família | Foto: Maristela Crispim

No Sítio Caldeirão, em Esperança (PB), a história do casal Maria das Graças Domingos Vicente (Nina) e Givaldo Firmino dos Santos mostra como a convivência com o Semiárido pode ser potencializada pela tecnologia social. Após anos de conquistas graduais, desde a primeira cisterna em 2010 até a melhoria da cozinha para produção de polpas de fruta em 2017, o casal encontrou na energia solar o impulso definitivo para o seu empreendimento.

Antes da instalação dos painéis, a conta de luz, impulsionada pela câmara fria necessária para estocar polpas de frutas, como cajá e maracujá, chegava a uma média de R$ 2.500. Após investirem em energia fotovoltaica, esse custo despencou para cerca de R$ 400, gerando uma economia mensal superior a R$ 2.000. “A maioria das pessoas se decepciona porque vai procurar logo o lucro. A gente procura cortar gasto. Quando a gente está cortando o gasto, dá para seguir em frente”, explica Givaldo.

Essa experiência bem-sucedida de geração própria de energia é o alicerce do Programa 1 Milhão de Tetos Solares (P1MTS), lançado oficialmente no dia 12 de março de 2026, em Remígio (PB), durante a 17ª Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia.

Democratização do acesso

O P1MTS surge como uma resposta política e social ao modelo de grandes empreendimentos eólicos e solares que, segundo a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), muitas vezes impactam negativamente os ecossistemas e as comunidades locais sem beneficiá-las diretamente. Cicero Felix, da coordenação da ASA, destaca o paradoxo de famílias que vivem sob torres de energia, mas ainda dependem de candeeiros.

“Nós fomos pautando que, da forma como chegam, não são energias limpas, são energias que provocam muitos impactos às famílias, às comunidades…”, afirma Felix. O programa visa inverter essa lógica, e promover o que ele chama de geração democrática. Historicamente vistos como “castigados pelo sol”, os povos do Semiárido agora o reivindicam como fonte de renda e autonomia.

Investimento e estrutura

Com um investimento inicial de quase R$ 9 milhões da Fundação Banco do Brasil e aportes adicionais da Cáritas Francesa e da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD) no Piauí, o programa inicia sua primeira fase beneficiando 400 famílias rurais em quatro estados: Paraíba, Minas Gerais, Pernambuco e Piauí.

O diferencial do P1MTS é a sua base educativa e produtiva:

  • Escolas-Fábrica Solares: Serão implantadas unidades onde os próprios beneficiários participarão da produção dos painéis fotovoltaicos.
  • Formação de Jovens: 60 jovens (20 por território) receberão capacitação gratuita como eletricistas, unindo formação profissional e empreendedorismo social.
  • Modelos de Sistema: O programa instalará sistemas off-grid (independentes da rede) para bombeamento de água e beneficiamento de alimentos, e sistemas on-grid (conectados à rede elétrica) para as residências, com capacidade de cerca de 550 Watts por painel.

Mulheres no Protagonismo
da Transição Energética

A escolha da Marcha das Mulheres para o lançamento não foi casual. Rejane Silva, coordenadora executiva da ASA, enfatiza que o programa se dedica à valorização feminina. “Hoje, a energia é concentrada, e nossa proposta é promover a descentralização, assegurando que as famílias do Semiárido tenham acesso à energia de qualidade e possam gerar sua própria energia”, defende.

Para Nina, a energia solar não é apenas uma questão técnica, mas de sobrevivência e lucro no campo. O excedente de energia também abre portas para o mercado; o programa prevê estudos de viabilidade para que os agricultores possam comercializar a energia produzida para a rede.

Objetivos Estratégicos

Um homem de pele clara e cabelos grisalhos está em primeiro plano, centralizado, em um ambiente externo ensolarado. Ele usa óculos de sol escuros, uma camisa de botões branca com listras verticais finas e um chapéu de couro marrom de estilo regional (típico do sertanejo). O homem está com a boca levemente aberta, como se estivesse falando, e gesticula com as duas mãos à frente do corpo. Ao fundo, vê-se uma casa simples com um terraço sombreado por um telhado de telhas de barro. Sobre o telhado, estão instaladas várias placas de energia solar e uma antena parabólica branca. O chão à frente é de terra batida clara e, ao longe, sob um céu azul, avista-se o topo de uma colina com vegetação verde
Cícero Félix, da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), destaca qualidade de vida, soberania alimentar e justiça econômica como pilares do Programa 1 Milhão de Tetos Solares (P1MTS) | Foto: Maristela Crispim

Segundo Cicero Felix, o P1MTS foca em três pilares fundamentais:

  1. Qualidade de vida: Garantir energia estável para o consumo doméstico, evitando as frequentes quedas de tensão no campo.
  2. Soberania Alimentar: Aumentar a oferta de energia para a produção de alimentos de base agroecológica.
  3. Justiça Econômica: Garantir o direito das populações locais de participarem do mercado de energia e da riqueza gerada pelo Sol.

Embora o caminho para a universalização ainda dependa de mais políticas públicas, exemplos como o de Nina e Givaldo mostram que a transição energética no Semiárido já começou, de baixo para cima. Como resume Givaldo: “O agricultor é meio sofrido, mas não pode fraquejar. Tem que seguir em frente”.

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