A pesquisadora Helena Lopes fala sobre territórios agroecológicos e os desafios políticos que aguardam o Semiárido em 2026

Os reflexos da Cúpula dos Povos e da COP30 consolidaram um legado essencial para os movimentos populares brasileiros: o reposicionamento estratégico da agenda climática na política global e territorial. Agora, este novo cenário promete ser um divisor de águas nas Eleições 2026, ao desafiar candidatos aos poderes Executivo e Legislativo a definirem o real espaço das propostas ambientais em seus planos de governo.
No epicentro dessa discussão em Belém (PA), o conceito de “territórios agroecológicos” emergiu não apenas como teoria, mas como uma solução prática e ancestral para a emergência climática. A ideia reafirma o que o campo da Agroecologia defende há décadas: as saídas para a crise global são plurais e nascem da resistência dos povos em seus próprios territórios.
Essa perspectiva se conecta diretamente à Convivência com o Semiárido, modelo fundamental para nortear projetos políticos que busquem, de fato, atender às demandas sociais em um ano eleitoral decisivo sob diversos aspectos.
Para aprofundar esse debate, a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), em parceria com a Eco Nordeste, conversou com Helena Lopes. Pesquisadora da Agenda de Saúde e Agroecologia na Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e integrante do GT de Justiça Climática e Agroecologia da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), ela explica o que define um território agroecológico na prática, sua relação com o Semiárido e os desafios políticos que aguardam essas populações em 2026.

Helena Dias – Recentemente, na Cúpula dos Povos e na COP30, movimentos e organizações sociais do Brasil demarcaram a necessidade da Agroecologia para frear a emergência climática. Neste ensejo, o conceito de “territórios agroecológicos” ganhou ainda mais visibilidade. Como surgiu esse conceito? O que caracteriza um “território agroecológico”?
Helena Lopes – Essa palavra ‘território’ muitas vezes é associada à divisão de fronteiras. Para divisas administrativas, onde começa um município, onde termina outro, onde começa um estado, um país. Só que no contexto da agroecologia, o território agroecológico está associado a quem vive naquele local e às diferentes práticas que essas pessoas vão organizando. Sejam práticas agrícolas, de criação de animais, práticas culturais e de afeto com aquele lugar. O território vai sendo construído por essa relação que as pessoas têm com o lugar onde elas habitam. Quando a gente pensa no campo das mudanças climáticas, o território ganha ainda uma especificidade que é muito importante aqui, mesmo a gente falando de um problema que é global. Isso é fundamental porque é na escala dos territórios que a Agroecologia ganha vida e tem capacidade de enfrentar o problema. Essa é uma chave de leitura muito importante para quando a gente está pensando sobre mudanças climáticas e territórios. Por exemplo, as práticas de enfrentamento do Semiárido são diferentes das práticas organizadas no Sul do Brasil ou das que são organizadas pela agricultura urbana nas regiões metropolitanas do País. Os territórios agroecológicos ajudam a gente a pensar como é necessária uma diversidade de respostas para um problema que é global.
HD – A gente pode dizer, então, que o território também é a forma como sujeitos e sujeitas convivem com ele? O conceito de “territórios agroecológicos” bebe da perspectiva de convivência com o Semiárido?
HL – Acho que no caso da convivência com o Semiárido isso é muito explícito, porque a gente está falando de um determinado território e ela tornou possível a vida das pessoas naquele lugar por meio das tecnologias. A gente pode citar as cisternas, mas também outras tecnologias de captação de água da chuva, a salvaguarda das sementes, as raças crioulas de animais. Os territórios livres de transgênicos e de agrotóxicos. Tudo isso compõe uma convivência que permite que as pessoas habitem aquele lugar, mas também que aquele lugar faça parte da vida delas. Quando a gente pensa em tudo que o Semiárido está ensinando… Porque a gente passou por um paradigma de que o Semiárido era um lugar impossível de se viver, inóspito, marcado pela seca, um lugar de pobreza profunda. E a convivência com o Semiárido é exatamente essa transformação do próprio território, de dizer como é possível habitar aquele lugar por meio de práticas adequadas e ao mesmo tempo como esse território alimenta as pessoas. Na produção de alimentos sazonais, adaptados ao clima e ao solo do Semiárido. Foi nessa combinação entre viver no território e se alimentar dele que se permitiu a vida florescer. Então, com certeza a convivência com o Semiárido ensina muito o que são territórios agroecológicos.
HD – Qual o papel das mulheres na manutenção desses territórios?
HL – A gente entende que a Agroecologia é um projeto de disputa, de transformação dos sistemas alimentares, de uma transição justa desses sistemas. Essa justiça não está associada só a práticas produtivas, mas a uma real integração das pessoas na sociedade. Um papel que as mulheres têm desenvolvido nos territórios e que a gente consegue observar nos mais diferentes biomas, nas mais diferentes regiões do Brasil, é o papel de manutenção da biodiversidade pela múltiplas práticas nos quintais produtivos, nas hortas, nos roçados e no manejo dos sistemas agroflorestais. Elas são responsáveis por combinar várias espécies e variedades animais ou vegetais e isso evita que existam super pragas, que o solo se degrade e que sejam utilizados fertilizantes químicos. Um outro papel fundamental que a gente pode destacar é no que se refere aos conhecimentos das plantas medicinais, sempre entendendo que o cuidado tem sido desempenhado secularmente pelas mulheres e, muitas vezes, não reconhecido como um trabalho. A gente tem muitas coisas para aprender com essas mulheres e, ao mesmo tempo, fazer uma defesa muito grande de como a Agroecologia só é possível com a defesa do feminismo.
HD – O que a gente tem de políticas hoje, no Brasil, que levam em consideração os territórios agroecológicos como solução climática? Alguma política se destaca neste sentido?
HL – Se a gente tem a Agroecologia como uma das formas de enfrentamento às mudanças do clima, com o seu papel de manutenção da biodiversidade, da conservação do solo, das tecnologias de captação de água, por exemplo, quando a gente pensa em políticas públicas que fortalecem a Agroecologia, a gente consegue fazer uma leitura de que essas políticas públicas são soluções climáticas super importantes. Quando a gente vai para o Programa de Aquisição de Alimentos, o PAA, o que tem nessa política pública? Uma compra e distribuição de alimentos que se orienta pela sazonalidade da produção, pelos alimentos que são produzidos em determinada região, numa condição específica de solo, de disponibilidade hídrica. Tudo isso garante uma produção de alimentos muito mais adequada e em referência às dimensões climáticas, porque o que a gente tem de desafio hoje é que o modelo alimentar dominante, na medida em que ele trabalha com desmatamento, gases de efeito estufa são liberados, e isso acaba por acarretar a utilização de fertilizantes químicos produzidos a partir de derivados de petróleo. Então, quando a gente olha para políticas públicas, está falando de políticas públicas que visam fortalecer exatamente os territórios agroecológicos. E isso é uma solução para o problema do clima.

Recentemente, foi criado o terceiro edital do programa Ecoforte, que também se caracteriza como uma política pública e acho que ela tem um diferencial bem interessante para pensar a solução climática, para pensar os territórios agroecológicos, uma política pública que foi pensada para apoiar redes de Agroecologia. Não existe uma única estrutura que diga o que será apoiado, são as redes de Agroecologia em referência aos diferentes territórios que vão dizer o que precisam. Isso traz uma inversão da própria cultura de construção de políticas públicas, que geralmente são verticalizadas, e essa é uma proposta que emerge desde os territórios, das necessidades que estão ali. Acho que a gente tem um conjunto de políticas públicas como eu mencionei, o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos), o PNAE (Programa de Alimentação Escolar) e o próprio Ecoforte, que são políticas públicas que se regulam, que se organizam em referência aos territórios. Isso, sem dúvida, são formas de construir soluções climáticas.
HD – Em um governo de ampla coalizão, o orçamento público segue em disputa entre o agronegócio e a agricultura familiar. Diante disso, o que está em jogo para os “territórios agroecológicos” nas Eleições 2026?
HL – A gente está falando de agricultores e agricultoras familiares, povos indígenas, comunidades tradicionais, agricultores e agricultoras urbanas que constituem e constroem a Agroecologia e os territórios agroecológicos. Quando a gente pensa nesse pulsar da Agroecologia, o ambiente democrático é fundamental. E o que a gente tem visto é que em momentos de governos antidemocráticos, mais próximos a uma perspectiva fascista, os territórios ficam muito mais expostos aos agrotóxicos, à contaminação por transgênicos, às violências diversas e à perda de direitos. Defender a democracia é fundamental para garantir a continuidade da Agroecologia, nos governos democráticos a gente tem uma capacidade de participação, de incidência, de diálogo muito mais ampliado. Ao contrário de governos antidemocráticos, em que geralmente há uma retração de políticas públicas. Por exemplo, no mapeamento que a ANA fez sobre a Agroecologia e justiça climática, a gente identificou mais de 500 experiências e, dessas experiências, só 30% disseram que acessam políticas públicas. É um número pequeno que aponta para necessidade de maior apoio do Estado. Se a gente tem um Estado com uma democracia fragilizada, com uma retração de políticas públicas, como esse tipo de experiência vai se fortalecer? Esse é um desafio que tá colocado para a gente.

HD – Você diria que, por isso, é importante lutar para que as políticas sejam de Estado e não de governos. O que está em risco para os territórios neste sentido?
HL – O nosso desafio é como a Agroecologia vai se institucionalizando como parte de uma estratégia do próprio Estado. Só que isso não é tão simples assim porque o que a gente vai ter historicamente é o Estado que se estrutura através dos latifundiários, que vão se reinventando. O agronegócio, por exemplo, vai ganhando um novo corpo por meio dessa relação entre os latifundiários de um programa produtivo de commodities. Quando a gente fala da importância de se tornar parte da própria constituição do Estado é fundamental entender que o nosso Estado é marcado por esse paradigma moderno da agricultura. Existe um desafio muito grande para a gente nesse campo, principalmente dentro das estruturas associadas à dimensão agrária e agrícola. Por isso também que é muito importante que as políticas públicas transitem entre os diferentes ministérios, para que a gente não pense em políticas públicas setorializadas. Que elas sejam capazes de combinar diferentes setores do próprio Estado porque é isso que vai fortalecer e garantir uma possibilidade de prosperidade dessas políticas públicas.


